quarta-feira, 17 de julho de 2013

A revelação básica nas Escrituras Sagradas, de Witness Lee - Capítulo 5

Capítulo Cinco

A IGREJA

Leitura da Bíblia: Mt 16:18; 18:17; 1 Tm 3:15; Ef 2:19; 1 Pe 2:5; Ef 1:22, 23; 3:19b; 2:15; 4:24; Cl 3:10, 11; Ef 5:25, 29, 32; Jo 3:29; Ap 19:7; 21:2,9; 22:17; Ef 6:11,12; 1 Co 12:12,13; At 8:1; 13:1; Ap 1:11-13, 20; 1 Co 3:10,11; Ef 2:20
A igreja é o objetivo final e máximo de Deus. O objetivo de Deus não é somente ter muitos cristãos individuais. Seu objetivo é ter uma igreja coletiva que possa ser Sua casa e o Corpo de Seu Filho. Esta igreja é a expressão de Deus. A igreja é tanto a família de Deus expressando Deus, o Pai, como o Corpo de Cristo expressando Cristo como Aquele que é a corporificação do Deus Triúno (Cl 2:9). O que iremos tratar neste capítulo é um extrato da revelação divina com respeito à igreja no Novo Testamento.


A EKKLESIA
A igreja é primeiramente uma ekklesia. Essa palavra grega denota uma congregação chamada para fora. Nos tem­pos antigos quando uma cidade chamava seus cidadãos para uma reunião, aquela congregação era uma ekklesia. O Novo Testamento, começando com o Senhor Jesus em Mateus 16, usa essa palavra para indicar a igreja (v. 18). A igreja é uma congregação chamada por Deus para Ele. Os Irmãos Unidos preferem usar a palavra assembléia. Creio que esta é uma melhor palavra para se usar, porque a palavra igreja em português tem sido muito danificada.
Na minha infância na China, entendíamos a palavra igreja significando um prédio com uma torre de sino. Para muitos de nós a igreja era um prédio. Hoje, muitas pessoas pensam o mesmo. Elas dizem que estão indo à igreja, referindo-se a um edifício. Esse conceito é absolutamente errado. Devemos abandonar esse pensamento. A igreja não é um edifício sem vida, mas algo orgânico, cheio de vida.
A igreja é uma assembléia de pessoas vivas, não um edifício físico sem vida. Entretanto, considerar a igreja mera­mente como uma congregação chamada para fora, uma assembléia, é ainda superficial. Pode haver uma congregação, uma assembléia, porém sem vida. Hoje existem muitas gran­des congregações em nossa sociedade, as quais estão sem a vida divina.


A CASA DE DEUS
A igreja é também a casa de Deus (1 Pe 2:5). Com isso não queremos apenas dizer que a igreja é a habitação de Deus. Esta palavra grega oikos não somente significa a casa, a habitação, mas também o lar. Oikos quer dizer tanto casa como os familiares, a família, que compõe o lar; assim, ela também pode ser traduzida por família (Ef 2:19).
O lugar de habitação de Deus hoje na terra é a igreja, e Deus, como um grande Pai, tem uma família, a qual é a igreja. Para nossa vida familiar temos uma casa e dentro da casa temos a família. Para nós a casa é uma coisa, e família é outra; a casa é o prédio e a família são as pessoas que vivem ali. A casa de Deus é a família de Deus, entretanto, são o mesmo. A casa é a família e a família é a casa.
Nós, como a igreja, somos a casa de Deus, o lugar de habitação de Deus. Ao mesmo tempo, somos a família de Deus. Tanto a casa de Deus como a família de Deus são uma única entidade, isto é, um grupo de regenerados, os chamados, habitados pelo próprio Deus. Estes chamados, que foram regenerados por Deus com Sua vida e que estão sendo habitados por este Deus vivo com tudo o que Ele é, são tanto o lugar de habitação de Deus como a Sua família. Isso é mais do que uma assembléia. Isso é diferente de um grupo de pessoas ou organização de pessoas. Isso é algo orgânico —orgânico na vida divina, orgânico na natureza divina e orgânico no Deus Triúno.
Alguns enfatizaram muito a ekklesia, mas não prestaram muita atenção ao aspecto orgânico da igreja. Eles não dis­seram muito acerca da igreja como a família de Deus. Devemos perceber, porém, que a igreja é orgânica; ela é a casa viva de Deus. Paulo diz que a igreja é a casa do Deus vivo (1 Tm 3:15) e que esta casa cresce (Ef 2:21). A sua casa cresce? As nossas casas não crescem. Elas desvalorizam-se. Mas a casa de Deus cresce! Para que algo cresça ele precisa ser vivo. Qualquer coisa sem vida não pode crescer. Tudo o que cresce é orgânico, com vida. Aleluia! nós estamos cres­cendo!
Em 1964 fui a Plainview, Texas, visitar um pequeno grupo de santos. E, em 1965 fui a Waco, Texas, visitar outro pequeno grupo. Sem fé, eu teria ficado completamente desapontado. Quando as notícias chegaram em Nova Iorque, um amado irmão com quem eu tinha servido por vários anos disse a outro irmão que ele não cria que estes pequenos grupos no Texas durariam. Em 1968 fui para Lubbock. Não vi uma igreja grande; antes, vi algo que precisava de muita fé. Pela Sua misericórdia tive aquela fé. Então os santos no Texas mudaram-se para Houston em 1969, e fui visitá-los. A situação ali era um tanto encorajadora, mas não tanto assim. Minhas visitas a Irving, entretanto, em 1982 e 1983 deixaram-me animado. Houve muito crescimento entre as igrejas no Texas porque a igreja é algo vivo. Ela é a casa viva do Deus vivo. Não é algo de organização, mas de vida; assim, seu cres­cimento é pela vida.


O CORPO DE CRISTO
A casa de Deus, a família de Deus, é orgânica, mas, num certo sentido, ela não é tão orgânica como o Corpo. A igreja é o Corpo de Cristo. Um grupo de cristãos pode ser uma assembléia, mas pode não ser na realidade a casa de Deus porque eles não vivem no espírito. Eles podem dizer que são o Corpo de Cristo, mas na realidade podem não ser, porque ainda estão vivendo na vida natural. Se vivemos em nossa vida natural, não somos o Corpo de Cristo.
Quando jovem, ouvi sobre dois ou três presbíteros que se reuniram para conversar acerca de alguns assuntos em sua assim chamada igreja. No final, um jogou sua Bíblia e outro levantou-se e saiu. Aquilo era o Corpo? Aquilo não era o Corpo, mas a carne caída.
Que é o Corpo? Olhe para si mesmo. Seu corpo é a maior parte de seu ser. Nada pode ser seu corpo, a não ser você mesmo. Uma prótese dentária não é parte do seu corpo; ela é algo extra, sem nenhuma vida. Os nossos dentes ver­dadeiros estão unidos ao nosso corpo, não por meio de organização, mas por meio de vida. Eles crescem organicamente no corpo. Um membro de seu corpo é orgânico; ele cresce em uma união orgânica com o corpo. O que quer que não esteja em união orgânica com seu corpo é estranho a ele.
Da mesma forma, o Corpo de Cristo é um organismo, não uma organização. Uma plataforma, por exemplo, con­siste em pedaços de madeira organizados e ajustados. O corpo de um homem, por outro lado, não é organizado, mas orgânico, cheio de vida.
A igreja não somente é a família viva de Deus, o Pai, mas muito mais, é um organismo vivo de Cristo, a Cabeça. O cristianismo caiu num estado onde há organização em vez de vida. Há milhões de cristãos na terra. Eles foram perdoados por meio da redenção de Cristo, lavados pelo Seu precioso sangue e regenerados pelo Espírito Santo; eles são filhos de Deus e membros de Cristo. Todavia, na realidade, em sua vida e serviço o que se vê é uma organização, não um or­ganismo. Cristo é orgânico, mas "ismo" não é. Qualquer tipo de "ismo", incluindo cristianismo e até mesmo "igreja-localismo", é uma organização.
A igreja deve ser somente orgânica, um organismo cheio da vida de Cristo. O que quer que você faça tem de ser proveniente da vida interior. Você é vivo. Você tem Cristo como a corporificação do Deus Triúno vivendo em você. Não se mova por si mesmo. Mova-se por Ele. Não aja por você mesmo. Aja por Ele. Um dia, quando pretendi visitar um irmão, fui impedido porque percebi que Cristo não estava indo visitar aquele irmão. Era somente eu, o eu natural, o bom eu, o eu com boas intenções; era totalmente eu mesmo, não Cristo. Então orei, dando ao Senhor minha posição, minha base e tudo pertencente àquela visita. Daí o Senhor começou a ir comigo. Existem muitos que amam o Senhor e são devotados a Ele e, todavia, não percebem que sua vida natural deve ser colocada de lado.
No novo homem, a igreja, "não pode haver grego nem judeu,circuncisão nem incírcuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém, Cristo é tudo e em todos" (Cl 3:10, 11). "Tudo" aqui indica pessoas. Dizer que Cristo é tudo quer dizer que Ele é você, Ele é eu mesmo, e Ele é cada um na igreja. Dizer que Cristo está em todos quer dizer que Ele está em cada um na igreja. O novo homem, a igreja, não é chinês, japonês, francês, inglês, alemão ou americano. O novo homem é Cris­to. Portanto, quando agimos como os chineses, japoneses, filipinos, americanos, ingleses, alemães, franceses ou italianos, já não somos a igreja. No novo homem não há judeu nem grego. Na realidade, no novo homem não pode haver nenhum judeu ou grego. Não pode haver nenhum chinês ou japonês. No novo homem não pode haver nenhum branco ou negro. Se ainda quer ser negro ou branco, você está acabado para o Corpo de Cristo. A igreja é um organis­mo. Portanto, devemos agir em nosso espírito, repudiando totalmente nossa vida natural.


A PLENITUDE (EXPRESSÃO) DAQUELE QUE A TUDO ENCHE EM TODAS AS COISAS
Muitos cristãos não entendem o que a palavra plenitude quer dizer em Efésios 1:23 e 3:19. Eles pensam que a palavra plenitude quer dizer riquezas. Efésios 1:23 diz que a igreja "é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas." Gramaticalmente "a plenitude" está em aposição a "seu corpo"; isto quer dizer que o Corpo é a plenitude e a plenitude é o Corpo. Plenitude não quer dizer as riquezas. Em Efésios, as riquezas insondáveis de Cristo são men­cionadas em 3:8. Temos de diferençar entre as riquezas e a plenitude. Os Estados Unidos têm supermercados cheios das riquezas da América. As riquezas da América são seus produtos, mas a plenitude da América é um americano robus­to. Essa plenitude é a expressão.
A plenitude provém das riquezas. Entretanto, se nós não comemos e digerimos as riquezas, podemos tê-las sem ter a plenitude. As riquezas resultam na plenitude pelo comer e digerir. Se não comemos e digerimos as riquezas, per­maneceremos magros e pequenos. Da mesma forma, a igreja não é somente o Corpo de Cristo, mas também a plenitude, a expressão, que resulta do desfrute das riquezas de Cristo.
Essa plenitude é a expressão do próprio Cristo univer­sal, que enche tudo em todas as coisas. Colossenses 3:11 diz que Cristo é tudo e em todos. "Tudo" e "todos" neste versí­culo, referem-se a pessoas. Em Efésios 1:23, entretanto, o "tudo em todas as coisas" que Cristo enche é algo universal. Cristo é ilimitado (Ef 1:23; 3:18). As dimensões do universo são na realidade as dimensões de Cristo. Quão longo é o comprimento? Quão alta é a altura? Quão profunda é a profundidade? Quão larga é a largura? Ninguém pode dizer. As dimensões de Cristo em Efésios 3:18 são insondáveis e ilimitadas. Essas dimensões são a descrição de Cristo.
Cristo enche tudo em todas as coisas, e nós, a igreja, pelo desfrutar de Suas riquezas, finalmente nos tornamos Sua plenitude. Se eu tivesse somente uma cabeça, sem um corpo, não teria plenitude. Esta plenitude é minha expressão. Temos de perceber que a igreja como o Corpo de Cristo é a plenitude de Cristo como Sua expressão.


A PLENITUDE (EXPRESSÃO) DE DEUS
Em Efésios 3:19, a Versão IBB Revisada de João Fer­reira de Almeida, diz: "Para que sejais cheios até a inteira plenitude de Deus". Somos enchidos até toda a plenitude de Deus. Somos enchidos, resultando em uma expressão de Deus. Plenitude aqui quer dizer expressão. Paulo disse que ele orou para que o Pai nos fortalecesse com poder mediante Seu Espírito no homem interior para que Cristo pudesse fazer Sua morada em nosso coração, e que pudéssemos conhecer as dimensões de Cristo — a largura, o comprimento, a altura e profundidade — para que pudéssemos ser enchidos até resultar na plenitude de Deus, a expressão de Deus (Ef 3:14-19).
Todo o livro de Efésios trata da igreja. Ela é a casa ou a família de Deus (2:19), ela é o Corpo de Cristo (1:23), e ela é a plenitude como a expressão de Cristo e de Deus (1:23; 3:19). De acordo com o capítulo três, a igreja pode ser tal expressão, não somente de Cristo, mas também de Deus, quando Cristo faz Sua morada em nosso coração para que possamos experimentar as Suas riquezas insondáveis. En­quanto estamos desfrutando Dele de tal forma, somos enchidos com todas as riquezas de Cristo, resultando numa expressão de Deus.
A igreja hoje deve ter tal expressão, resultante do rico desfrute das riquezas insondáveis de Cristo. Temos muito en­cargo pela situação entre os cristãos. Onde há uma expressão de Deus? Espero que entre nós haja tal expressão. Todos precisamos orar por nós mesmos assim como Paulo orou por nós em Efésios 3. Devemos dobrar os joelhos perante o Pai para que Ele nos fortaleça no nosso homem interior, para que Cristo faça Sua morada em nosso coração, estabelecendo-se plenamente em cada "avenida", em cada parte de nosso ser interior. Então podemos desfrutar do Seu amor, e podemos tocar e possuir as Suas dimensões. Seremos enchidos com Ele até a plenitude de Deus, a expressão de Deus. Isso não é somente uma assembléia ou uma congregação de cristãos chamados para fora. Isso é um grupo de pessoas plenamente possuídas por Cristo e desfrutando-O ao máximo, sendo saturadas por Ele e enchidas com Ele a tal ponto que elas tornam-se uma expressão de Deus.
O que quer que comamos, isso expressamos. Quando jovem, às vezes ia visitar meus avós que viviam à beira-mar. Freqüentemente comiam peixe, enquanto que a nossa família raramente comia peixe. Sempre que ia à casa de meus avós, eu não cheirava outra coisa a não ser peixe. Um dia pergun­tei a minha mãe por que todos ali cheiravam a peixe. Ela replicou: "Você não sabe que eles comem peixe todos os dias? É por isso que cheiram a peixe!" O que quer que coma­mos, tornamo-nos e expressamos isso.
Quando comemos Jesus, nós exalamos Seu perfume (2 Co 2:15), O expressamos, e nos tornamos Ele. Que é a igreja? A igreja é a expressão do próprio Cristo a quem comemos. Toda a plenitude da deidade está corporificada neste Cristo, e este mesmo Cristo é nosso pão da vida (Jo 6:48). Ele disse: "Quem de mim se alimenta, por mim viverá" (Jo 6:57). Quando comemos Cristo, vivemos por Ele. Este Cristo é a corporificação do Deus Triúno; quando comemos Cristo, comemos o Deus Triúno. O nosso Salvador, Jesus Cristo, a corporificação do Deus Triúno, é o nosso maná diário, o nosso alimento diário. Nós O comemos, então O ex­pressamos. Essa expressão é a plenitude Daquele que a tudo enche em todas as coisas. Por fim, essa é plenitude do Deus Triúno. Podemos ser tal expressão por comer Jesus. Deixe-O saturar todo o seu ser. Deixe-O estabelecer-se em cada sala, cada avenida, e cada canto de seu interior — em sua mente, sua emoção, sua vontade, sua consciência, sua alma e em seu espírito; em seu amar, suas decisões, sua intenção e sua motivação. O que quer que você faça, deve ser enchido com Cristo.
Comer Jesus é simplesmente tomá-Lo para dentro de nós e deixá-Lo ser assimilado para dentro de nosso ser. Comer significa receber alimento para dentro de nosso ser; comer Jesus significa recebê-Lo para dentro de nosso ser. O resultado do nosso comê-Lo é a plenitude Daquele que a tudo enche em todas as coisas e também do próprio Deus Triúno. Esta plenitude é a igreja. A igreja não é somente uma assembléia, nem é somente a casa de Deus, a família de Deus; ela é também o Corpo, um organismo dessa Pessoa viva, o qual finalmente torna-se Sua plenitude e a plenitude do Deus Triúno.


O NOVO HOMEM
Efésios 2:15 diz que Cristo por meio da cruz "aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo um novo homem." Então em Efésios 4:22-24 é-nos dito para despojar-nos do velho homem e revestir-nos do novo homem. Este novo homem é o Corpo de Cristo. Revestir-se do novo homem quer dizer viver uma vida por meio do Corpo. Antes de nossa salvação estávamos vivendo no velho homem, na velha sociedade, mas agora somos membros de Cristo, vivendo em Seu Corpo. Devemos despojar-nos do velho homem com a velha vida social, e devemos revestir-nos do novo homem, a igreja. Neste novo homem não há nada natural, nada judeu, nada grego, nada de posição social; todos estão cheios de Cristo, assim Cristo é tudo e Cristo está em todos (Cl 3:10, 11). Não há nada além de Cristo no novo homem. A nossa vida é Cristo, nosso viver é Cristo, nossa intenção é Cristo, nossa ambição é Cristo, nossa vontade é Cristo, nosso amor é Cristo, e tudo o mais relacionado a nós é Cristo. Ele satura todo o nosso ser.
Esse novo homem, de acordo com Efésios 4:17-32, vive uma vida pela graça e verdade. Esses são os dois fatores prin­cipais no viver de tal novo homem para cumprir o propósito de Deus. Deus necessita de um novo homem nesta terra para cumprir o Seu propósito, para levar a cabo Sua intenção.


A NOIVA DE CRISTO
Em Efésios 5 temos a igreja como a noiva de Cristo (vs. 25, 29, 32; ver também Jo 3:29; Ap 19:7; 21:2, 9; 22:17). Cris­to deu-se na cruz não somente por você e por mim individualmente, mas para a igreja. Quando pensamos acerca da morte de Cristo, normalmente consideramos somente a nós mesmos individualmente. Sim, Cristo nos amou e morreu na cruz por cada um de nós, mas Sua morte foi principal­mente para a igreja.
Cristo também alimenta e cuida da igreja com carinho (v. 29). Alimentar é nutrir. Cuidar com carinho é envolver com cuidado amoroso, cheio de calor, como uma mãe segurando seu filho junto ao peito. Cristo trata Sua igreja dessa maneira supridora e carinhosa.
O grande mistério mencionado em 5:32 refere-se a Cris­to e à igreja. O capítulo 5 refere-se ao amor (vs. 2, 25) e à luz (vs. 8, 9, 13). Amor é a fonte da graça e luz é a fonte da ver­dade. Quando a luz brilha, ali está a verdade. Quando o amor é expresso, ali está a graça. No capítulo quatro, a igreja como o novo homem, experimenta graça e verdade, mas no capítulo 5 a noiva que satisfaz Cristo experimenta algo mais profundo e mais elevado, isto é, amor e luz. Como o novo homem, a igreja cumpre o propósito de Deus. Como a noiva, a igreja satisfaz o desejo de Cristo. Ele é o Esposo e a igreja é Sua esposa, satisfazendo o desejo de Seu Esposo.


A GUERREIRA
No capítulo quatro o novo homem cumpre o propósito de Deus. No capítulo cinco a noiva satisfaz o desejo do coração de Cristo. Agora, no capítulo seis, a igreja como a guerreira luta contra o inimigo de Deus (vs. 10-17).


SEU ASPECTO UNIVERSAL
O aspecto universal da igreja é mencionado em Mateus 16:18. Quando Pedro reconheceu que o Senhor Jesus era o Cristo e o Filho de Deus, o Senhor disse a ele que Ele edificaria Sua igreja sobre esta rocha. A igreja aqui é univer­sal, compreendendo todos os crentes de todos os tempos e em todos os lugares, incluindo Paulo, Pedro, e todos os san­tos ao longo destes vinte séculos (1 Co 12:13).


SEU ASPECTO LOCAL
O aspecto local da igreja é referido pelo Senhor Jesus em Mateus 18:17. O Senhor Jesus nos quatro Evangelhos menciona a igreja somente duas vezes: uma vez em Mateus 16:18, referindo-se a seu aspecto universal, e a segunda vez em Mateus 18:17, referindo-se a seu aspecto local.
Em Mateus 18 o Senhor Jesus disse que se temos algum problema que não podemos resolver, devemos dizer isso para a igreja. Isso refere-se à igreja em uma certa localidade. Seria difícil contar um problema para a igreja universal. Hoje, muitos cristãos que amam ao Senhor preocupam-se somente com a igreja universal. No conceito deles, contanto que sejam membros do Corpo de Cristo, isso é suficiente; mas perguntaríamos, praticamente falando, onde está a igreja deles? Se temos algum problema que para ser resolvido necessita da ajuda da igreja, aonde iremos? Temos de ter uma igreja local da qual sejamos parte, da qual podemos obter ajuda e à qual podemos ir com os nossos problemas.

As Igrejas Locais
Universalmente, a igreja é uma, mas localmente, as igrejas são muitas. Em Atos 8:1 há a igreja em Jerusalém. Em Atos 13:1 (VRC) há a igreja em Antioquia. Em seguida há igrejas mencionadas em Atos 14:23 e 15:41; aqui a palavra igrejas é usada porque havia várias cidades nestas regiões. Em Romanos 16:1 há a igreja em Cencréia. Há a igreja em Corinto (1 Co 1:2). Em Gaiatas 1:2 temos as igrejas na Galácia; havia muitas, porque a Galácia era uma província do antigo Império Romano com muitas cidades. Em Apocalipse 1:4 e 11 há as sete igrejas na Ásia. A Ásia também era uma província.
Apocalipse 1:11 diz: "O que vês, escreve em livro e manda às sete igrejas: Efeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sar-des, Filadélfia e Laodicéia." Este versículo revela que uma igreja é equivalente a uma cidade. Escrever para a igreja em Efeso quer dizer escrever para a cidade de Efeso. Estas são igrejas locais. Igreja local não é um termo usado como um nome, mas ele descreve o fato de haver uma igreja em uma cidade. A igreja não tem um nome, assim como a lua não tem um nome. Não há tal coisa como lua americana ou lua chinesa. A lua na China é a mesma lua como em outros países. Quando ela está sobre a China, ela é a lua na China. Quando ela está sobre a Inglaterra, ela é a lua na Inglaterra. Ela é uma única lua. Da mesma forma, a igreja é uma; ela é única. A igreja é tanto local como universal.

Os Candelabros
Essas igrejas locais são candelabros. Um candelabro é a corporificação do Deus Triúno. Como sabemos disso? Primeiro, a substância do candelabro é ouro, significando Deus, o Pai, e a natureza divina. Então, o candelabro tem um formato; ele não é somente uma massa informe de ouro, mas tem uma forma definida. Isso significa Cristo como a própria corporificação de Deus. Terceiro, as sete lâmpadas são os sete olhos do Cordeiro e os sete Espíritos de Deus (Ap 5:6; 4:5 - IBB - Rev.). As sete lâmpadas como os sete Espíritos de Deus são a expressão do Deus Triúno. O Espírito é a expressão, o Filho é o formato, a forma, e o Pai é a substância da igreja como o maravilhoso candelabro.
Dizer que a igreja é a corporificação do Deus Triúno não é fazer a igreja uma parte da deidade, um objeto de adoração. Queremos dizer que a igreja é uma entidade nas­cida de Deus (Jo 1:12, 13), possuindo a vida de Deus (1 Jo 5:11, 12), e desfrutando a natureza de Deus (2 Pe 1:4). A igreja tem a substância divina, possui a semelhança de Cristo e expressa o próprio Deus. Desde que nascemos de Deus, nós certamente temos a vida de Deus e possuímos a Sua natureza, e desfrutamos esta vida e natureza todos os dias. Estamos aprendendo por Sua misericórdia e graça a não viver por nossa vida natural, mas por meio da vida e natureza divinas. Enquanto estamos sendo assim transformados, haverá a plenitude, a expressão, a forma, a aparência de Cris­to, e estaremos brilhando, não por nós mesmos, mas pelo Espírito sete vezes intensificado.
A igreja é a corporificação do Deus Triúno para expressá-Lo. Nós, como membros de Cristo, somos os filhos de Deus nascidos Dele, tendo Sua vida e possuindo Sua natureza. Estamos fazendo o melhor para viver por esta vida e natureza, para que possamos ser enchidos e saturados com este rico Cristo a fim de tornarmo-nos Sua expressão por meio do Espírito sete vezes intensificado.
Isso é uma igreja local. Ela não é somente uma assembléia exterior. Ela é algo interior, de vida, contudo, ex­pressando o próprio Deus. Queridos santos, este é o objetivo de Deus.

Seu Conteúdo — o Cristo Pneumático
O conteúdo da igreja é o Cristo pneumático. Grandes mestres na história da igreja primitiva usaram tal termo. Isso quer dizer que Cristo é idêntico ao pneuma, ao Espírito. Não conseguimos explicar isso, todavia isso é um fato. Hoje você e eu estamos vivendo Cristo. Cristo não é somente nossa vida interior, mas também nosso viver exterior. Paulo disse: "Para mim o viver é Cristo" (Fp 1:21a). Nós vivemos Cristo. Ele não é meramente o Cristo objetivo sentado no trono; esse Cristo que está no trono à destra de Deus está simultanea­mente dentro de nós.
Como Cristo pode estar no trono nos céus e também estar dentro de nós? Romanos 8:34 nos diz claramente que Cristo está à destra de Deus, mas o versículo 10 do mesmo capítulo diz: "Cristo está em vós". No mesmo capítulo, um versículo nos diz que Cristo está nos céus e outro versículo nos diz que Cristo está em nós.
A eletricidade nos proporciona uma boa ilustração de como isso pode ser. A luz em uma sala vem da eletricidade. Essa eletricidade está ao mesmo tempo na usina elétrica e na sala. Há uma corrente de eletricidade. Essa corrente conecta a usina elétrica ao prédio. Similarmente, Cristo é "elétrico", pneumático. Há uma corrente do trono de Deus para o nosso espírito. Aleluia! O nosso espírito está todo conectado ao trono celestial, assim como as luzes em uma sala estão todas conectadas à usina elétrica pela corrente interior de eletricidade. A corrente de eletricidade é simplesmente a própria eletricidade. A corrente é a eletricidade em movimento. A eletricidade que se move é a corrente. Cristo é o pneuma que se move. Essa corrente que se move é chamada por João, em sua primeira epístola, de comunhão (1 Jo 1:3). A comunhão é a corrente de Cristo. Cristo está circulando, movendo-se. Carecemos de expressão humana para descrever algo tão misterioso e profundo. A eletricidade, entretanto, pode ajudar-nos a ilustrar tal assunto misterioso, abstrato.
O nosso Cristo é a corrente de eletricidade. O nosso Cristo é a circulação sangüínea em Seu Corpo. Ele é a própria comunhão entre Deus e nós, e entre todos os filhos de Deus. A corrente é o Cristo pneumático e este Cristo pneumático é o próprio conteúdo da igreja. Cristo, que é o Espírito que dá vida (1 Co 15:45 - lit.), está sempre se moven­do para infundir a Si mesmo para dentro de nós. O propósito da corrente elétrica é infundir eletricidade para dentro das lâmpadas para que todas elas possam expressar a luz da eletricidade. Esse Cristo pneumático está movendo-se em nós com o propósito de infundir-se para dentro de nós para que possamos expressar a Sua vida. Todos fomos batizados Nele e agora estamos bebendo Dele (1 Co 12:13).


SEU FUNDAMENTO
O fundamento da igreja é Cristo, revelado e ministrado por intermédio dos apóstolos e profetas. Efésios 2:20 fala do fundamento dos apóstolos e profetas. Esse fundamento é o próprio Cristo que eles ministraram a outros. Paulo disse que Cristo era o único fundamento, o qual ele havia lançado. Ninguém pode lançar outro fundamento (1 Co 3:10, 11). O Cristo, que é o fundamento da igreja, é o Cristo único, revelado e ministrado pelos primeiros apóstolos, como registrado no Novo Testamento.
Devemos ficar com esse Cristo. Não devemos tomar "outro Cristo". Quão gratos somos ao Senhor por que Ele tem guardado Sua Santa Palavra nesta terra, e que sob Sua soberania ela tem sido traduzida para tantas línguas! Que misericórdia! Se não houvesse a Bíblia nesta terra, que era tenebrosa seria esta. Aleluia, temos a Bíblia! Isso é certa­mente a lâmpada brilhando em um lugar escuro (2 Pe 1:19). Ela tem-se tornado a luz do nosso caminho (SI 119:105) e nós estamos andando nesta luz — a luz da Bíblia.


SUA BASE
A Primeira Epístola aos Coríntios 3:11 diz que não há outro fundamento que possa ser lançado exceto o único fun­damento, Cristo. Antes que uma fundação seja lançada, entretanto, uma casa deve ter um terreno no qual ela possa ser construída. O lote é a base sobre a qual o fundamento é construído. Então a casa é construída em cima do fundamen­to. A estrutura é construída sobre o fundamento e o fundamento é lançado sobre a base.
A Igreja Católica alega que o seu fundamento é Cristo. As Igrejas Metodista e Prebisteriana também alegam que o fundamento delas é Cristo. Todas as denominações fazem esta mesma afirmação. O fundamento delas, entretanto, está edificado sobre diferentes bases. A Igreja Presbiteriana está edificada sobre Cristo na base Presbiteriana. A Igreja Batista está edificada sobre Cristo, mas na base da imersão na água deles. Os metodistas têm uma base metodista sobre a qual Cristo como o fundamento deles está edificado. As várias denominações seguem o mesmo caminho. Elas edifícam sua denominação em Cristo mas na base particular delas.
Nós não gostamos de criticar, mas temos de falar a ver­dade. Fico pesaroso porque a Igreja Batista Sulina somente reconhece aqueles que são imersos na água deles e pelos pas­tores deles. Se alguém foi imerso em outro lugar, eles não o deixarão juntar-se a eles a menos que ele aceite a imersão deles feita pelo pastor deles. Isso faz da imersão Batista a base e os torna uma facção, uma denominação. A Igreja de Cristo tem uma prática similar, exceto que eles crêem na regeneração batismal, que a água deles pode regenerar aqueles que são batizados nela.
Antes de vir a Dallas em 1966, fui convidado por um irmão em Los Angeles para jantar em sua casa. Enquanto estávamos comendo, um irmão perguntou-me se cria no batismo pela água. Eu disse: "Creio no batismo pela água e no batismo pelo Espírito também." Ele imediatamente começou a argumentar que não havia tal coisa de batismo pela água na Bíblia. Era cristão há quarenta anos e nunca tinha ouvido nenhum cristão dizer que no Novo Testamento não há batismo pela água. Quando citei a ele João 3:5 acerca de ser nascido da água e do Espírito, ele disse que a água ali era a água do ventre materno! Para ele, todos devem primeiramente nascer de sua mãe, o que é significado pela água, e então ele tem de nascer do Espírito. Eu nunca tinha ouvido tal explicação. O conceito era tão absurdo que senti que não havia necessidade de falar.
Na manhã seguinte voei para Dallas. A noite tive uma reunião ali. Enquanto eu estava falando, uma mulher ousada perguntou-me acerca do batismo pela água. Descobri que ela era da Igreja de Cristo e que era totalmente pelo batismo na água deles. Em Los Angeles alguém fora totalmente contra o batismo pela água, e no dia seguinte em Dallas havia alguém totalmente a favor do batismo pela água. Tal é a situação de hoje. Pessoas edifícam uma assim chamada igreja sobre a base deles.
Todas as diversas denominações vieram à existência nas suas diversas bases. Seus vários nomes — Presbiterianas, Batistas, Episcopais, Luteranas, Metodistas, Pentecostais e outras — são as bases sobre as quais edifícam suas igrejas. Em que base você está edifícado? Não diga em Cristo. Todo cristão diz isso. Qualquer que seja a denominação ou grupo a que você vai, eles dirão que o fundamento deles é Cristo. Mas, e quanto a base onde o fundamento é lançado?
Qual é a nossa base? A base do início da era cristã, desde o tempo dos apóstolos, é a única unidade do Corpo de Cristo, mantida e expressada em cada igreja na sua localidade (Ap 1:11). Isso quer dizer que nós, cristãos, em qualquer localidade que estejamos, nos reunimos para ser a igreja ali. Não temos outra base além daquela da única unidade do Corpo de Cristo. Uma igreja local é uma expressão da igreja universal. A igreja universalmente é uma, e este único Corpo de Cristo é expressado em muitas localidades. Em toda localidade onde há vários santos, esses santos devem reunir-se como a igreja ali, não para tomar a base do batismo por imersão, falar em línguas, o presbitério, um método, o sis­tema episcopal, ou alguma base exceto aquela de ser um com
todos os outros reunindo-se ali como a expressão local do Corpo de Cristo.
Essa unidade deve ser a base na qual somos edificados. Não devemos ser sectários; não devemos ser exclusivos. Temos de ser todo-inclusivos, abertos e amando todos os queridos santos. Contanto que sejam cristãos, eles são nossos irmãos. Os nossos irmãos foram dispersos para muitas denominações. Apesar disso, nós ainda os amamos. Não devemos ter uma atitude ou um espírito de luta, oposição ou debate. Isso é errado. Devemos sempre manter um espírito e uma atitude de amar todos os cristãos. Desde que carreguem o nome de cristão e creiam no Senhor Jesus, eles são nossos irmãos e irmãs. Nas igrejas locais não temos nenhuma parede. Não temos nenhuma cerca. Consideramos todos os queridos cristãos como nossos irmãos.


PREGAR O EVANGELHO, APRESENTAR
A VERDADE E MINISTRAR VIDA
COMO O TESTEMUNHO DE JESUS
Devemos aprender a verdade, crescer em vida, e sair para contatar as pessoas. O que dissermos dependerá do nosso discernimento. Se a pessoa não é salva, pregaremos o evangelho. Se descobrimos que ela é cristã, podemos apresentar a verdade que temos aprendido. Cristãos apreciam muito a verdade. Talvez possamos apresentar a ver­dade da transformação como em 2 Coríntios 3:18. Então, se possível, podemos ministrar vida a ela testemunhando, dizendo a ela como recebemos Cristo e como nós O ex­perimentamos como vida. Um testemunho ministrará vida às pessoas. Não espere trazer as pessoas para a reunião para que a igreja aumente. Deixe o assunto do aumento nas mãos do Senhor. O nosso testemunho não é um grande número. O nosso testemunho é um grupo de santos vivendo no espírito, andando de acordo com o espírito, e sendo a expressão viva de Jesus na família, na escola, no trabalho e na vida da igreja. O nosso encargo é apresentar o evangelho para os não-sal-vos, a verdade para os salvos, e vida aos que a buscam. Deixe
o assunto da igreja com o Senhor. Deixe cada pessoa esco­lher por si mesma de acordo com o seu discernimento. Ninguém pode controlar o cristianismo de hoje. Ele é grande demais. Temos de perceber a nossa pequenez. Nós devemos viver Cristo e andar no espírito, sendo o testemunho vivo Dele. Desse modo seremos um benefício para todos aqueles que contatamos. Não devemos esperar que eles venham à nossa reunião. Se eles quiserem vir, é claro que não os rejeitaremos. Espero que estejamos todos claros acerca de onde nos posicionamos e como praticamos a vida da igreja. Que o Senhor abençoe a todos nós.