domingo, 14 de dezembro de 2014

A História Manuscrita do Novo Testamento

A História Manuscrita do Novo Testamento
Nataniel dos Santos Gomes (UNESA)

Dedicado ao professor e amigo José Pereira, que me contagiou com a paixão pelos estudos filológicos.

Introdução

Num período de quase 1500 anos o Novo Testamento foi copiado à mão em papiro e pergaminho. Temos notícia de uns 5500 manuscritos espalhados em museus e bibliotecas pelo mundo afora. Os documentos vão desde fragmentos de papiro até Bíblias inteiras em grego, produzidas a partir da invenção da imprensa.
É notório que nem todos os manuscritos concordam. Essas pequenas variações requerem uma avaliação cuidadosa para determinar o que ao autor realmente escreveu. Não existe mais nenhum manuscrito original, vamos depender tão somente de cópias dos textos-fontes de autores apostólicos. Por isso precisamos da crítica textual.
Acreditamos que a Bíblia é plena e verbalmente inspirada no seu original. A nossa intenção é procurar dar maior segurança possível ao leitor quanto à fidedignidade da fonte grega de todas versões que temos hoje.

Os problemas
O apóstolo Paulo diz em sua carta aos gálatas: “Vede com que letras grande vos escrevi de meu próprio punho” (6.11). Agora, imaginemos como seria impressionante poder ver a epístola no original ou ver como apóstolo assinava seus textos. Mas, infelizmente, todos os originais já desaparecem e o confronto da cópia de um manuscrito com o original ou com outra cópia, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para escolha do texto exato é impossível.
É importante percebermos que uma das razões para o fim prematuro dos autógrafos do Novo Testamento foi a pouca durabilidade do papiro, que não durava muito mais que o papel atual. É bem possível que os cristãos primitivos tenham lido e relido os originais até que eles se desfizeram por completo. Mas antes que os textos desaparecessem, eles foram copiados. E aí estamos com um outro problema: os erros introduzidos nos textos mediante as cópias feitas manualmente.
Até a invenção da imprensa, muitos erros foram cometidos, resultado natural da fragilidade dos copistas. E obviamente, à medida, que aumentavam as cópias, mais cresciam as divergências entre elas. Afinal cada copista acrescentava os próprios erros àqueles já cometidos pelo anterior. O objetivo da Crítica Textual tem sido de avaliar as fontes e reconstruir o texto com a maior probabilidade de ser o original.

Dificuldades de trabalho
O primeiro desafio da Edição Crítica do Novo Testamento está na distância entre as cópias mais completas e os originais. O texto sagrado estava completo por volta do ano 100, sendo que a grande maioria dos livros que o compõem já exista há pelo menos 20 anos antes dessa data, alguns até 50 anos antes, e de todas as cópias manuscritas que chegaram até nós, as melhores e mais importantes são do século IV. Ou seja, a distância entre os autógrafos chega perto de três séculos. Isso faz com que o Novo Testamento seja a obra mais bem documentada da Antigüidade.
Só para ilustrar a afirmação acima podemos dizer que os Clássicos (gregos e latinos), que poucas pessoas questionam a autenticidade, possuem um espaço muito maior entre os autógrafos e as cópias. Por exemplo, a cópia mais antiga que se conhece de Platão foi escrita 1300 anos depois de sua morte. Um único dos clássicos que se aproxima do Novo Testamento é Virgílio, falecido no ano 8 a.C., que encontramos um manuscrito completo de suas obras no século IV d.C.
Nesse aspecto, a situação do Novo Testamento é bem diferente. Temos manuscritos do século IV, em pergaminho, e um número considerável de fragmentos em papiro de praticamente todos os livros que compõem o Novo Testamento, que nos levam até o século III, e alguns até o século II.
Há um segundo obstáculo: o grande número de documentos disponíveis. Conforme foi dito no início do trabalho, existem cerca de 5500 manuscritos gregos (língua que o Novo Testamento foi escrito) completos ou fragmentos, fora aproximadamente 1300 manuscritos das versões e milhares de citações dos Pais da Igreja. Ou seja, o problema não está na falta de evidências textuais, mas no excesso. Assim, temos mais um problema que resulta em vantagem, afinal temos uma multiplicação de manuscritos que oferecem ensejo para os mais variados erros e muito mais elementos de comparação. Isso faz com que o texto tenha muito mais apoio crítico do que qualquer outro livro da antiguidade.
O terceiro desafio é o número assustador de variantes existentes. Num processo natural de multiplicação de manuscritos por um período de mais ou menos 1400 anos, foram surgindo inúmeras variações textuais. Notemos que as variações são de pouca importância doutrinária. Por exemplo, são variações na ordem de palavras, no uso de diferentes preposições e outras, o que na prática não tem como ser representado na língua portuguesa.

A preparação do texto
Conforme dissemos acima, até o século XV, os textos eram transmitidos a partir de cópias manuais, usando material muito rústico.

Papiro
O papiro foi utilizado nas primeiras cópias do Novo Testamento, já que era o principal material de escrita da Antigüidade.
O papiro era um tipo de junco, com caule triangular, com a grossura de um braço, com altura que variava entre 2 e 4 metros, que crescia nas margens do Lago Huleh, na Fenícia, no vale do Jordão e junto Nilo (onde foram encontrados os mais antigos fragmentos de papiro conhecidos, que constam de 2850 a.C.). A folha era feita com a medula do caule cortada em tiras estreitas e postas em duas camadas transversais sobre uma superfície plana. Depois eram batidas com um objeto de madeira, e se colocavam por causa da substância liberada da medula. Em seguida era seca ao sol e alisada, e estava pronta para a escrita.
O tamanho médio de uma folha era de 18 x 25cm, que podia variar de acordo com a finalidade. Várias podiam ser coladas pela borda para formar um rolo, que geralmente não tinha mais do que 10 metros de comprimento. O texto normalmente aparecia em colunas de 7 cm de altura, com intervalo de 1,5 cm ou 2 cm, com um pequeno espaço para correções e anotações. As margens superiores e inferiores eram maiores. A margem do começo do rolo era ainda maior. Nos rolos utilizados com maior freqüência, usa-se um bastão roliço, cujas pontas sobressaiam acima e abaixo.
Como regra só se escrevia sobre um lado, exceto em caso de escassez que se utilizava o verso. A tinta era feita com fuligem, goma e água, e a escrita era feita com uma cana de 15 a 40 cm de comprimento, de uma planta vinda também do Egito.
O papiro foi utilizado como material para escrita até a conquista do Egito pelos árabes, em 641, quando ficou impossível importar o material. Sendo utilizado principalmente na literatura secular a partir do século IV.
A primeira descoberta moderna de papiros ocorreu em 1778 numa província do Egito, chamada Fauim, dessa data em diante, milhares têm sido descobertos, principalmente no Egito, graças ao clima seco que favorece em muito a sua preservação.

O pergaminho
Outro material utilizado era o pergaminho, que era mais durável que o papiro. Ele era feito em peles de carneiro ou ovelha submetido a um banho de cal e em seguida raspada e polida com pedra-pomes. Depois eram lavada, novamente raspadas e colocadas para secar em molduras de madeira a fim de evitar pregas ou rugas. No final do processo recebiam uma ou mais demãos de alvaidade. A etimologia vem da cidade de Pérgamo, onde processo foi desenvolvido por volta do século II a.C.
É interessante perceber que o seu uso já era conhecido desde o século XVIII a.C., só que bem menos utilizado do que o papiro. O pergaminho só conseguiu superar o papiro somente no século IV d.C, por causa do seu custo elevado, até o final da Idade Média, quando foi substituído pelo papel, que foi inventado na China começo do século I, e no século XII, foi introduzido na Europa por comerciantes árabes.
Os pergaminhos eram escritos com penas de bronze ou cobre. Os remígios de ganso acabaram substituindo as peças metálicas. A tinta era feita a partir de substâncias vegetais ou minerais. A cor mais comum era preta ou a vermelha, todavia eram produzidas tintas douradas e prateadas. As linhas eram marcadas por um estilete, podendo ser horizontais ou verticais.
Há um tipo de pergaminho conhecido como palimpsesto, que era aquele cuja obra havia sido raspada para receber um texto novo, já que o material era caríssimo. Tal prática foi condenada para o uso de pergaminhos bíblicos para outros propósitos no ano de 692, pelo Concílio de Trullo. Usam-se vários métodos para que se possa restaurar o texto original: reagentes químicos (que acabavam estragando o pergaminho); fotografia de palimpsesto (iluminação do pergaminho com raios ultravioleta afim de enxergar a escrita).

Códice
Adotou-se o preguear dos manuscritos nas suas bordas e juntar uma série, formando uma espécie de caderno. Em obras maiores, faziam-se cadernos com um número menor de folhas, mas dobradas, como nos livros modernos. Os cadernos variavam de oito, dez ou doze folhas, todavia já foram encontrados até com cem. Surgem os chamados códices.
Os estudiosos têm afirmado que os códices surgiram primeiramente em Roma, no início do Cristianismo. Os cristãos, por questões de praticidade, foram os responsáveis pela popularização do tipo: permitindo que os textos bíblicos estivessem num único livro, a maior rapidez na localização de passagens, mais baratos (escritos dos dois lados da folha).
Em segundo lugar, os gentios convertidos ao cristianismo, parece que optaram pelo códice para diferenciar dos livros usados pelos judeus e pelos pagãos.

Escrita
A escrita mais comum nos manuscritos mais antigos do Novo Testamento, assim como de muitos textos literários era a uncial ou maiúscula. No texto sagrado ela era caracterizada por ser mais arredondada do que nos documentos literários, sem espaço entre palavras, sem pontuação e com abreviações bem definidas.
A outra forma de escrita era com letras menores ligadas, chamadas de cursivas. Usada, principalmente, com cartas familiares, recibos, testamentos etc. Normalmente os termos “cursivo” e “minúsculo” são empregados sem distinção. Alguns atribuem o primeiro à escrita informal e de documentos não-literários e o segundo para os literários desenvolvidos a partir da cursiva.
No século IX, ocorreu uma reforma na escrita, passou a usar letras pequenas, chamadas de minúsculas na produção de livros. Mais fluidas e rápidas, demandavam menos tempo e reduziam o preço dos manuscritos, apesar da difícil leitura.
A mudança foi gradual. Fixa-se o século XI, como o período no qual somente as minúsculas eram utilizadas. Muitos manuscritos no período intermediário, foram produzidos numa forma de combinação de uncial com minúscula.

Abreviações
O uso de abreviações já aparece nas cópias mais antigas do Novo Testamento, provavelmente com objetivo de poupar espaço. Elas eram do tipo contração, suspensão, ligaturas ou símbolos. É importante salientar que as contrações, diferentemente, das outras abreviações, são utilizadas como forma de reverencia ao nome Deus, principalmente no texto hebraico. É notório que essa prática é limitada ao texto bíblico e outras fontes cristãs, mas quando essas palavras estão sendo utilizadas em outro sentido, elas não são contraídas.

Formato
Os manuscritos eram variados em relação ao formato ou tamanho. Os menos eram de uso privado, os maiores na liturgia. O menor conhecido é o do Apocalipse, do século IV, de apenas uma página, que mede 7,7 x 9,3 cm e o maior é chamado Códice Gigante, do século XIII, com 49 x 89,5 cm.
O texto não seguia nenhuma forma muito rígida na página. Os papiros possuíam dezenas de colunas, os códices eram limitados ao tamanho das páginas.

Orientações para o leitor
Mesmo nos manuscritos mais antigos, encontramos freqüentemente o uso de informações auxiliares. Por exemplo:
Prólogos: exceto o Apocalipse, todos os textos do Novo Testamento trazem notas introdutórias, tratando do autor do conteúdo e a origem do texto. Os prólogos foram preparados durante períodos de controvérsias em a Igreja de Roma e Marcião, defensor cânon com o evangelho de Lucas e dez epistolas de Paulo, no século II.
Capítulos. Eusébio preparou uma divisão em seções para fins sinópticos, mas na maioria dos manuscritos encontramos outro tipo de divisão, ordenando os textos em relação ao conteúdo. Cada seção é identificada como um capítulo, levando uma inscrição. A divisão em capítulos, utilizada nas edições modernas, foi criada bem no início do século XIII, pelo arcebispo de Cantuária, Estevão Langton. Já a divisão em versículos surgiu com o editor parisiense Roberto Estáfano: o NT em 1551 e o AT em 1555.

Fontes documentais
As fontes documentais dividem-se em: (a) manuscritos gregos, (b) antigas versões e (c) citações feitas por autores cristãos antigos.

(a) Manuscritos gregos
São aproximadamente 5500, classificados de acordo com o material e o estilo da escrita: papiros, unciais e minúsculos,

Papiros
São conhecidos 96 papiros, escritos em uncial até o século IV. A maioria são fragmentos de códices. São os manuscritos mais antigos conhecidos do Novo Testamento.

Unciais
São os manuscritos feitos em pergaminho quando o papiro caiu em desuso, no século IV, e utilizados até o século XI, ou seja, durante sete séculos. A escrita manteve o mesmo padrão dos papiros, somente um pouco maiores.

Minúsculos
São manuscritos que carecem de valor crítico; são importantes apenas como testemunhas da história medieval do texto do Novo Testamento. Foram documentos preparados em escrita minúscula, entre os séculos IX e XVI, quando começam a surgir textos gregos impressos.

Lecionários
Os cristãos herdaram uma prática comum entre os judeus: ler textos bíblicos nas reuniões de culto em unidades adequadas ao calendário anual ou à ordem eclesiástica. Nesta prática eles usavam os chamados lecionários. Alguns apresentavam lições completas para cada dia da semana, outros só para sábados, domingos ou dias santificados. Provavelmente os lecionários surgiram no fim do século III ou início do século IV.

Óstracos
Na Antiguidade, ainda podemos encontrar um outro tipo de material, o óstraco: fragmentos de jarro quebrado ou louça contendo frases curtas, escritas com objetos pontiagudos. Representam a literatura de uma classe que não podia comprar o papiro ou que não considerava tal escrita importante o suficiente para justificar tal compra.

Talismãs
São fontes preparadas como talismãs ou amuletos, em madeira, cerâmica, papiro ou pergaminho. Contêm partes do Texto Sagrado. São conhecidos apenas nove talismãs do Novo Testamento.

(b) Antigas versões
Conforme afirmado acima, a segunda fonte mais importante para chegarmos à vontade última dos autores do Novo Testamento são as antigas versões. Surgidas em decorrência do Cristianismo, que se espalhava pelo mundo grego. As versões surgem para aqueles que não dominavam a língua grega. Os manuscritos mais antigos não ultrapassem o início do século IV ou, quando muito, o final do III, o texto que evidenciam representa um estágio de desenvolvimento provavelmente não posterior ao final do século II. Daí o valor das versões para a crítica textual não estar propriamente nelas mesmas, mas nas indicações que dão do texto grego de que foram traduzidas.

Siríaca
Provavelmente, as primeiras traduções do Novo Testamento foram feitas em siríaco, língua falada na Mesopotâmia, na Síria e em partes da Palestina, com algumas diferenças dialetais, por volta do ano 150. A tradução surgiu da necessidade de leitura de pessoas que tinham dificuldade com o grego.

Latina
São conhecidas duas versões: a Antiga Latina, traduções feitas até o século IV, e a Vulgata Latina, feita por Jerônimo no final do século IV e início do V. Presume-se que as traduções latinas começaram no norte da África, em Cartago, que era um dos centros da cultura romana, provavelmente no final do século II. Outras traduções começaram a surgir em países europeus em que o grego estava em declínio, sendo superado pelo latim. Portanto, a Antiga Latina está dividida em duas famílias ou grupos de traduções: a africana, mais antiga e mais livre em relação ao original, e a européia consistem em nova tradução. Alguns têm pensado numa terceira família, a italiana, provavelmente surgida no século IV para amenizar as diferenças entre as outras duas traduções. Todavia, a maioria dos críticos não aceita essa tríplice divisão, eles argumentam a terceira família representa apenas uma forma da Vulgata.
Com tantas traduções é inevitável um maior número de divergências textuais. Agostinho já falava nas dúvidas que as inúmeras traduções traziam. Jerônimo foi designado pelo Papa Damaso em 383 a rever toda a Bíblia Latina. No ano seguinte a revisão dos evangelhos ficou pronta, onde as variações eram maiores. Jerônimo procurou eliminar as adições e harmonizações presentes nas versões latinas e fez alterações em 3500 lugares. Em 405, toda a Bíblia ficou pronta e só muito lentamente foi conquistando prioridade, até que nos séculos VIII e IX impôs-se de modo quase universal, embora a Antiga Latina continuasse sendo copiada e usada até por volta do século XIII. O título honorífico de “Vulgata”, (“comum” ou “de uso público”) dado pela primeira vez no final da Idade Média. Ela acabou se oficializando como a Bíblia oficial Católica no Concílio de Trento, em 1546.

Copta
O copta significa o último estágio da língua egípcia antiga. No início do Cristianismo ela consistia em meia dúzia de dialetos e era escrita em unciais gregos com outras letras. O Cristianismo entra com facilidade nessa região graças às colônias judaicas ali existentes, principalmente na Alexandria. Portanto, foi ali, longe da influência do grego, que fez-se necessária a primeira tradução copta do Novo Testamento, no início do século III.

Outras versões
Há um número grande de outras versões antigas, como a Gótica, a Armênia, a Etíope, a Geórgica, a Nubiana, a Arábica e a Eslava, mas de menor importância para a crítica textual, por não haverem sido traduzidas diretamente do texto grego. A Armênia, conhecida como “a rainha das versões”, por sua beleza e exatidão, é que preserva o maior número deles: cerca de 1300.

(c) Citações patrísticas
As citações dos Pais da Igreja (antigos escritores cristãos) representam o terceiro grupo de fontes documentais para o estudo crítico do Novo Testamento: citações encontradas nos comentários, sermões, cartas e outros trabalhos dos chamados Pais da Igreja, especialmente os situados até os séculos IV ou V. É importante perceber que são tantas as citações que poderíamos reconstituir quase todo o Novo Testamento através delas, mesmo sem os manuscritos gregos e versões. Somente com Orígenes isso quase já seria possível.
O problema das citações é que a maioria delas foi feita de memória, portanto, são inexatas. Contudo são importantes por evidenciarem o texto antigo, do qual pouco testemunho de manuscrito existe, quanto por demonstrar as primeiras tendências que influenciaram o desenvolvimento histórico do texto neotestamentário. Em quase todos os casos podem ser datadas e localizadas geograficamente, permitindo também que se verifique a data e a procedência geográfica dos manuscritos. As citações dos Pais da Igreja representam um auxílio valioso para a reconstituição da história primitiva do texto do Novo Testamento e, por conseguinte, de sua mais antiga forma textual acessível.

A história do texto escrito
Agora estamos no núcleo do problema do Novo Testamento: a tentativa de explicar o surgimento das primeiras leituras divergentes e a influência que elas exerceram em todas a transmissão do texto.

Cópias livres
Quando o Cristianismo estava sob intensa oposição judaica e romana, os livros do Novo Testamento, nem sempre as cópias podiam ser preparados em nas melhores circunstâncias. À exceção de Lucas, que era médico e provavelmente conseguiu recursos financeiros com o Teófilo, para quem o Evangelho e o Livro dos Atos são dedicados, mostra um grande cuidado no preparo do texto. É bem possível que Teófilo tenha financiado as primeiras cópias e tenha influenciado a audiência seleta e mais numerosa do livro. Todavia parece que nenhum outro escritor apostólico pôde dispor de tantos recursos em seus trabalhos literários. Paulo também era erudito, mas, além de parecer sofrer de deficiência visual, algumas epístolas ainda tiveram de ser escritas enquanto era prisioneiro, o que em certo sentido também aconteceu com João em relação ao Apocalipse. É óbvio nessas circunstâncias tanto Paulo quanto João, além de Pedro, utilizavam-se de assistentes, contudo é bem pouco provável que fosses redatores profissionais.
Provavelmente as primeiras cópias passaram pelo mesmo problema, já que as cartas apostólicas eram enviadas a uma congregação ou a um individuo, ou os evangelhos escritos para satisfazerem às necessidades de um público leitor em particular, os autógrafos estavam separados e espalhados entre as várias comunidades cristãs e, ao ser copiados, não tiveram a oportunidade de receber um tratamento profissional. Por causa da situação financeira e da necessidade de reproduzir os textos, que tinham pouca durabilidade, além da rápida expansão do Cristianismo, as comunidades utilizavam copistas amadores e pessoas bem-intencionadas. Paulo cita em sua epistola aos colossenses (4:16) uma carta à igreja de Laodicéia, que não temos nenhuma cópia. O texto parece indicar que havia troca de correspondências entre as várias igrejas ainda no período apostólico, mediante a elaboração e o envio de cópias.
Assim, os originais começaram a ser reproduzidos dentro do chamado período apostólico, e as primeiras variantes começaram, por causa da falta de um revisor.
É claro que uma outra fonte de variantes era o próprio descuido na exatidão literal. Os cristãos não tinham a mesma preocupação que os judeus ao citarem o Antigo Testamento, estavam mais interessados no sentido do que no texto propriamente dito. Por isso, os Pais da Igreja citam muitas vezes o texto de maneira inexata, valendo-se de alusões e da memória. Que são, na realidade, variantes intencionais, a maior parte das variantes do texto sagrado dos cristãos. São correções com base na preferência pessoal, na tradição ou em algum relato paralelo.
Não quer dizer que os cristãos não considerassem o Novo Testamento como “Escritura”. Vemos que tanto o Novo como o Antigo Testamento são colocados no mesmo patamar de importância. O apóstolo Pedro classifica alguns textos do apóstolo Paulo “Escritura”. Possivelmente a primeira coleção de textos paulinos foi feita na Ásia Menor, no período apostólico. Na Epistola de Barnabé, no Didaquê e na carta escrita à Igreja de Corinto por Clemente (todas obras as três obras pós-apostólicas de regiões distintas, que eram antigos centros do cristianismo) encontramos citações aos evangelhos sinóticos, além de Atos, e algumas epístolas. Paulo quando escreve a Timóteo, (5. 18) ao cita o evangelho de Lucas (10.7) e o livro de Deuteronômio (25.4), conferindo a mesma autoridade escriturística a ambos.
O mais provável é que a maioria destas alterações tenha surgido como tentativa dos escribas em melhorar o texto, fazendo correções ortográficas, gramaticais, estilísticas e até mesmo exegéticas. Num período em que havia muitas heresias, certas palavras poderiam gerar más interpretações. Assim os copistas para guardar a essência do texto faziam alterações de certas palavras ou expressões, algumas vezes mudando até mesmo o sentido. Jerônimo chega a reclamar que as mudanças que os copistas realizam, acabam gerando mais erros.

Textos locais
Com a expansão do Cristianismo várias cópias foram levadas a diversas regiões, cada uma com as suas próprias variantes, e ao passarem pelo processo de cópia mantinham as variantes e ainda eram adicionadas outras. Desse modo, os manuscritos que circulavam numa localidade tendiam assemelhavam-se mais entre si que os de outras localidades. Mesmo na mesma região era praticamente impossível que houvesse dois textos exatamente iguais; todavia, certos grupos de manuscritos poderiam assemelhar-se uns aos outros mais intimamente que a outros grupos do mesmo texto local. Alguns textos poderiam se tornar mistos, quando os manuscritos podiam ser comparados a outras cópias de outros lugares e corrigidos por elas. A tendência era de não misturar os textos.

Texto Alexandrino
A Alexandria superou Atenas, no período helenístico, tornando-se o centro de mais importante de cultura do mediterrâneo. Quem nunca ouviu falar na Biblioteca de Alexandria, com seus 700.000 volumes? Foi lá que os textos de Homero passaram pela primeira tentativa de edição crítica. Zenódoto de Éfeseo, primeiro diretor da biblioteca, comparou diversos manuscritos da Ilíada e daodisséia, em 274 a.C., tentando restaurar o texto original. Sem dúvida, que esse cuidado acabou influenciando os cristãos da região, fazendo com que eles procurassem a excelência no texto. Faltava na região as reminiscências pessoais e a tradição oral, o que teria aumentado a exigência quanto à exatidão do texto.
De qualquer forma, o texto alexandrino é considerado o melhor texto, com pouquíssimas modificações gramaticais ou estilísticas, cerca de 2% ou 3%.

Texto ocidental
Nas regiões dominadas por Roma, desenvolveu-se outro tipo de texto, o chamado texto ocidental, bem diferente nos evangelhos e principalmente em Atos, onde é quase 10% mais longo que a forma original, o que já fez supor a existência de duas edições desse livro.
A principal característica é o uso da paráfrase. Observa-se que palavras, frases e até partes inteiras foram modificadas, omitidas ou acrescentas. O motivo disso parece ter sido a harmonização, principalmente no caso dos evangelhos sinóticos, ou mesmo, o enriquecimento da narrativa com a inclusão de alguma tradição, envolvendo umas poucas declarações e incidentes da vida de Jesus e os apóstolos.

Texto Cesareense
Provavelmente tem origem no Egito, assim como o texto alexandrino, de onde teria sido levado para Cesaréia por Orígenes.

Texto Bizantino
Possivelmente, resultado da revisão de antigos textos locais feita por Luciano de Antioquia, pouco do seu martírio no ano de 312.

Unificação textual
Com a conversão de Constantino, em 312, entramos numa nova fase na história do Novo Testamento, principalmente com Edito de Milão, no ano seguinte, colocando o Cristianismo no mesmo patamar que qualquer outra religião do Império Romano, ordenando que as propriedades da igreja que haviam sido confiscadas fossem devolvidas. Com isso, houve um aumento considerável na circulação de textos sagrados, que não mais corriam o risco de apreensão e destruição em praça pública.
No caso do texto, percebemos que uma maior integração dos cristãos possibilitou a comparação de manuscritos e a obtenção de um tipo de texto que não tivesse tantas variantes. E os textos locais foram pouco a pouco cedendo lugar a único texto.
Possivelmente, o primeiro tipo de texto a circular em Constantinopla talvez não tenha sido o bizantino. Eusébio, em 331, foi encarregado por Constantino de preparar 50 cópias das Escrituras em pergaminho para as igrejas da nova capital. Eusébio usava o texto cesarense, portanto, é provável que tenha sido esse o tipo de texto primeiramente usado ali. É provável que essas cópias tenham sido submetidas a correções com base no texto luciânico, até serem finalmente substituídas por novas cópias essencialmente bizantinas, produzidas em algum escritório ou mosteiro local. Tornou-se um procedimento muito comum.
A Vulgata Latina, de Jerônimo, acabou predominando na Europa Ocidental. Não significa, porém, que o texto de Luciano fosse desconhecido. Muitos manuscritos greco-latinos trazem o texto bizantino, ainda que combinado com variantes da Antiga Latina. Até a Vulgata acabou incorporando algumas formas bizantinas. No século XVI, com a invenção da imprensa, os editores preocuparam-se com a publicação do Novo Testamento grego, e o texto que utilizado o bizantino, e continuou, com pequenas modificações, até o final do século XIX.

Tipos de variantes
Há ainda a necessidade de conhecer a origem e natureza dos erros de transcrição para que o trabalho se torne possível.

Alterações acidentais
Equívoco visual - alguns erros foram cometidos ao confundir o copista certas letras com outras de grafia semelhante.
Outro tipo de equívoco visual é parablepse, que significa pular de uma palavra, frase ou parágrafo para outro, devido a começos ou términos semelhantes, com a omissão de palavras.
Além dos equívocos chamados de ditografia, que são a repetição de uma sílaba ou frase, ou parte de uma frase.
A metátese, que é a transposição de fonemas no interior de um mesmo vocábulo ou a transposição de vocábulos numa mesma frase.
Equívoco auditivo - quando certas vogais e ditongos gregos vieram a ser pronunciados de maneira praticamente idêntica, fenômeno conhecido como iotacismo, bem comum no grego moderno.
Equívoco de memória - poderiam variar desde a substituição de sinônimos, a inversão na seqüência de palavras, quando a mente traía o copista.
Equívoco de julgamento - Quando um copista se deparava com comentários diversos anotados na margem do manuscrito que lhe estivesse servindo de modelo e não dispusesse de outras cópias para efeito de comparação, poderia incluí-lo no texto julgando que de fato devessem estar ali. Por exemplo, um manuscrito do século XIV, há um exemplo de erro de julgamento. O modelo do qual foi copiado o evangelho de Lucas deveria trazer a genealogia de Jesus (3. 3-28) em duas colunas paralelas de 28 linhas cada. Todavia, ao copiar o texto seguindo a ordem das colunas, o escriba o fez seguindo a ordem das linhas, passando de uma coluna para outra. Como resultado, praticamente todos os filhos tiveram seus pais trocados.

Alterações intencionais
Harmonização textual e litúrgica - o copista se sentia tentado a harmonizar os livros que apresentassem passagens paralelas, um pouco divergentes. Principalmente nos evangelhos sinóticos, com muitos textos sendo alterados para uma narrativa mais unificada possível.
É interessante notar que muitas citações do Antigo Testamento eram feitas sem muito rigor pelos apóstolos, e copistas procuravam adaptar à Septuaginta (LXX - tradução do Antigo Testamento para o grego, feita por hebreus).
Alguns textos eram adaptados para ser lidos publicamente nos serviços de culto, e tais arranjos influenciaram a própria transmissão do texto. O exemplo mais claro é o da Oração do Senhor (Mateus 6. 9-13), cuja doxologia “pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.”, foi acrescentada para o uso litúrgico, acabou sendo incorporada no texto de muitos manuscritos.
Correção ortográfica, gramatical e estilística - A maioria das alterações ortográficas nos manuscritos bíblicos ocorreu devido à falta de qualquer padronização oficial e à influencia de vários dialetos, assim inúmeros termos gregos acabaram tendo formas diversas na soletração, principalmente os nomes próprios.
Correção histórica e geográfica - Alguns escribas tentaram harmonizar o relato do Evangelho de João da cronologia da Paixão de Cristo com a de Marcos, mudando a “hora sexta” (João 19.14) para a “hora terceira” (Marcos 15.25).
Correção exegética e doutrinária - Algumas vezes o copista se deparava com uma passagem de difícil interpretação, assim ele tentava completar-lhe o sentido, tornando-a mais exata, menos ofensiva ou obscura.
Interpolação de notas marginais, complementos naturais e tradições ­- A inclusão de textos marginais ao corpo textual como apontamentos, correções, interpretações, reações pessoais e mesmo informações gerais quanto ao texto era comum.
Note-se que certas palavras ou expressões que aparecem juntas no texto bíblico ou no uso habitual da Igreja, e a falta de uma delas numa ou noutra passagem levava o copista a acrescentá-la, são os chamados complementos naturais.
Conforme já foi dito, os críticos têm demonstrado que as variantes têm pouca ou nenhuma importância. De qualquer modo, os fatos do Novo Testamento que dizem respeito à fé e à moral são expressos em muitos lugares, o fundo doutrinário fica obscurecido, nem pouco alterado, pelas passagens criticamente incertas. Podemos afirmar com toda a certeza científica que o texto dos cristãos, se não criticamente, foi conservado doutrinariamente incorrupto.

O texto impresso
Entre os séculos XV e XVI, entramos numa nova fase na história do Novo Testamento. Primeiramente a imprensa tornou os trabalhos de reprodução mais rápidos e baratos, além de acabar de uma vez com a multiplicação dos erros de transcrição. Assim, as cópias passaram a ser feitas com muito mais agilidade e precisão, exatamente como haviam sido escritas, salvo raras exceções, a maioria das quais de erros tipográficos de menor importância.
Um segundo fator que ajudou a levar o texto neotestamentário a essa nova fase de desenvolvimento e sistematização foi o movimento renascentista, com sua ênfase nos valores artísticos e literários do homem, que acabou fazendo despertar na Europa um grande interesse pela cultura grega clássica. Conseqüentemente os estudiosos cristãos também começaram a valorizar os manuscritos gregos do Novo Testamento, revisando a Vulgata.

Primeiras edições
Apesar da impressa, a publicação do Novo Testamento em grego não saiu imediatamente. O primeiro produto representativo da tipografia foi justamente a Bíblia, a Vulgata de Jerônimo, em dois volumes, entre 1450 e 1455. Nos 50 anos seguintes, pelo menos cem edições da Vulgata ainda foram preparadas por várias casas editoras da Europa.
Para a língua portuguesa, temos em 1495, em Saragoça, a publicação das epístolas paulinas e dos evangelhos. Naquele ano, em Lisboa, foi publicada, em quatro volumes, uma harmonia dos evangelhos. O Novo Testamento completo saiu em 1681, em Amsterdã, já na versão de João Ferreira de Almeida. A Bíblia completa em português foi publicada em 1753, na Holanda, depois que Jacó den Akker haver terminado a tradução do Antigo Testamento, parada com a morte de Almeida, em 1691, no texto de Ezequiel 48.12.
O cardeal e arcebispo de Toledo Francisco Ximenes de Cisceros (1437-1517), foi o responsável de promover e organizar a primeira impressão do texto grego do Novo Testamento, como parte da chamada Bíblia Poliglota Complutense.
Erasmo de Roterdã (1469-1536), escritor e humanista holandês, produziu, em 1516, o primeiro Novo Testamento grego que chegou ao domínio público, sendo beneficiado com o atraso na divulgação da obra de Ximenes.

O Texto Recebido
Quando o Novo Testamento grego de Erasmo chegou ao público ocorreram diversas reações. De um lado houve ampla aceitação, tanto que ele preparou uma nova edição, e a tiragem total das edições de 1516 e 1519 alcançou 3300 exemplares. A segunda edição, agora intitulada Novum Testamentum, foi a que serviu de base da tradução alemã de Martinho Lutero. De outro lado, a obra foi recebida com grande preconceito e até com hostilidade. Três fatores contribuíram para isso: 1) as diferenças que havia entre sua nova tradução latina e a consagrada Vulgata; 2) as longas anotações, que justificava sua tradução e 3) a inclusão, entre as notas, de comentários sobre a vida desregrada e corrupta de muitos sacerdotes. Clérigos protestaram fazendo uso dos púlpitos, conseqüentemente Universidades, como as de Cambridge e Oxford, proibiram seus alunos de lerem os escritos de Erasmo, e os livreiros de os venderem.
Dentre as críticas levantadas contra Erasmo, uma das mais sérias veio da parte de Lopes de Stunica, um dos editores da Poliglota Complutense, que o acusou de não incluir no texto de 1 João 5.7 e 8 a Coma Joanina. Erasmo replicou que não havia encontrado nenhum manuscrito grego que a contivesse, e prometeu que a incluiria em suas próximas edições se apenas um único manuscrito grego trouxesse a passagem. Um manuscrito foi-lhe trazido, e Erasmo cumpriu sua promessa na terceira edição, de 1522, todavia numa longa nota marginal, ele suspeita do manuscrito como sendo preparado para confundi-lo. Para alguns críticos esse manuscrito parece ter sido falsamente preparado em Oxford, em 1520, por um frade franciscano chamado Froy, extraído da Vulgata Latina.

Edições Intermediárias
Em seguida, temos a preocupação em reunir variantes textuais e estabelecer os princípios de um trabalho textual mais científico, baseado em pesquisas progressivas dos manuscritos gregos, das versões e da literatura patrística. O contexto agora era outro, os estudiosos tinham lutar contra o movimento racionalista, que encontrara no deísmo sua expressão religiosa. Defendendo a existência de uma religião natural, onde a verdade só podia ser alcançada pela razão e pelo método científico, o deísmo encarava as Escrituras como um simples manual ético de origem humana, e colaborou, entre outras coisas, para que sua pureza textual fosse questionada. Os pesquisadores cristãos surgiram nos principais países europeus em defesa do cristianismo histórico e da integridade textual da Bíblia. E, no esforço por provar que o Novo Testamento que dispunham era exatamente àquilo que os autores originais haviam escrito, tiveram também de defrontar-se com o Texto Recebido, no qual os problemas tornaram-se ainda mais graves.
Os críticos, por dois séculos, vasculharam bibliotecas e mosteiros na Europa e em todo o mundo mediterrâneo procurando material que pudesse ser útil. Todavia, continuaram a publicar o Texto Recebido, submetendo-se a ele. Ele era um texto já tradicional e reverenciado por todos, e ninguém se aventuravam a modificá-lo, sob o risco de censura ou até de disciplina eclesiástica.
Durante esse período não ocorreu qualquer progresso real no texto grego do Novo Testamento que estava sendo publicado. Todavia, as muitas variantes que se tornaram conhecidas mediante o progressivo e acurado exame dos manuscritos, o início de sua classificação de acordo com as famílias textuais e o desenvolvimento das teorias críticas ofereceram a base necessária para que tal progresso se concretizasse no período seguinte. Nos confrontos entre os partidários do Texto Recebido e os que estavam acreditavam na superioridade dos manuscritos mais antigos, a vitória dos últimos estava garantida. As evidências acumuladas tornavam evidente que o texto precisava ser corrigido, para o próprio bem do cristianismo histórico, principalmente por causa dos ataques racionalistas. Contudo, o reinado do Texto Recebido estava chegando ao fim. Os princípios que permitiriam essa conquista já estavam praticamente estabelecidos e necessitavam apenas ser aprimorados.

Edições Modernas
No século XIX, a predominância do Texto Recebido foi finalmente interrompida. Os esforços dos pesquisadores nos dois séculos anteriores fizeram com que a crítica textual realmente se tornasse uma ciência. A distribuição dos manuscritos nos diferentes grupos permitiu que os muitos documentos começassem a ser organizados e que a história da tradição manuscrita fosse reconstruída, levando ao desenvolvimento sistemático de metodologias e ao tratamento mais científico das inúmeras variantes. Apesar dos críticos ainda divergirem com relação às teorias, todos buscavam um texto que estivesse o mais próximo possível do original e, nesse novo período, rompendo com o Texto Recebido. Surgindo o texto crítico e, com ele, o período moderno da crítica textual do Novo Testamento.

Conclusão
Depois de quase 500 anos de história do texto do Novo Testamento e das mais de mil edições surgidas desde século XV com Erasmo, dos vários estudos, os editores críticos de um modo geral concordam com o texto crítico moderno e apenas um grupo bem pequeno de variantes é contestada. E mesmo que surja uma edição nova com muitas variantes, já está mais ou menos claro que o Novo Testamento grego está muito próximo dos textos primitivos originais. O chamado Texto Recebido foi abandonado pela maioria dos estudiosos, que defendiam como a forma mais próxima do original.
Apesar dos erros dos copistas, a integridade do texto foi mantida. Sua coerência interna é uma evidência muito forte. A Crítica Textual tem demonstrado que a Palavra de Deus fala hoje com a mesmo eloqüência que falava no período apostólico. Podemos pegar a Bíblia sem medo e dizer seguramente que é a Palavra de Deus transmitida na sua essência através dos séculos.

Bibliografia

ALLEN, Clifton J. Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento 1-5. Vols. 8-12. Rio de Janeiro : JUERP, 1983-1985.
BALLARINI, Teodorico (dir). Introdução à Bíblia. Tradução Frei Simão Voigt. Petrópolis : Vozes, 1968.
Bíblia de Jerusalém, (A). Nova edição revista. São Paulo : Paulinas, 1986.
Bíblia online: a maior biblioteca da Bíblia em CD-ROM no Brasil. Barueri : Sociedade Bíblica do Brasil, 1998.
Biblia sacra iuxta vulgatam clementinam. Biblioteca de Autores Cristianos. Madrid : La Editorial Católica, 1943.
Bíblia Sagrada, A. Edição Revista e Corrigida. Traduzida por João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro : Sociedade Bíblica do Brasil, 1963.
Bíblia Sagrada, A. Tradução em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada, 2 ed. São Paulo : Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
Bíblia Sagrada, A. Tradução na linguagem de hoje. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1988.
Bíblia Sagrada. Versão revisada. 8 imp. Rio de Janeiro : Imprensa Bíblica Brasileira, 1992.
Bíblia Vida Nova. 17 ed. São Paulo : Vida Nova, 1993.
Holy Bible, the. King James Version. The Gideons International : Nashville, 1965.
LÄPPLE, Alfred. As origens da Bíblia. Tradução de Belchior Cornélio da Silva. Petrópolis : Vozes, 1973.
McDOWELL, Josh. Evidência que exige um veredicto. Volume 2. São Paulo : Candeia, 1992.
New Testament (The). New International Version. Holman Bible Publishers, Nashville, 1988.
Novo Testamento: nova versão internacional. São Paulo : Sociedade Bíblica Internacional, 2000.
Novo Testamento: versão fácil de ler. São Paulo: Editora Vida Cristã, 1999.
Novum testamentum graece et latine. Aparatu critico instuctum edidit Augustinus Merk. Editio octava. Roma : Sumptibus Pontificii Instituti Biblici, 1957.
PAROSCHI, Wilson. Crítica textual do Novo Testamento. São Paulo : Vida Nova, 1993.
Santa Biblia. Antigua versión de Casiodoro de Reina (1569), revisada por Cipriano de Valera (1602), otras revisiones: 1862, 1909 y 1960. Revisión de 1960. Sociedades bíblicas unidas: [Madrid], 1996.
STEINMANN, Jean. A crítica em face da Bíblia. Tradução J. Duprat. São Paulo : Flamboyant, 1960.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

"Não utilize Deus ou a religião para fugir da dureza da condição humana, dos compromissos e das vicissitudes que a vida e a história trazem para você; Jesus, quando tentado, não transformou as pedras em pães. O relacionamento com Deus é o que realmente importa; e ele aumenta quando você está no deserto!" (Prof. A. F. Lemos)

"Não utilize Deus ou a religião para fugir da dureza da condição humana, dos compromissos e das vicissitudes que a vida e a história trazem para você; Jesus, quando tentado, não transformou as pedras em pães. O relacionamento com Deus é o que realmente importa; e ele aumenta quando você está no deserto!"  (Prof. A. F. Lemos)

domingo, 16 de novembro de 2014

A IMPORTÂNCIA DE CRERMOS NA DIVINA INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS


Quanto às emblemáticas narrativas do Evangelho, pode-se dizer que, nela e em torno dela, figuram oito elementos intra e extradiegéticos:
a) autor real;
b) autor implícito;
c) narrador;
d) narração;
e) narratário;
f) leitor implícito;
g) leitor real e
h) Deus.

Tomemos, à guisa de modelo, o "Evangelho de Jesus Cristo segundo escreveu São Lucas".
a) AUTOR REAL
É o Lucas, enquanto pessoa biográfica e histórica. É o verdadeiro redator do texto.
b) AUTOR IMPLÍCITO
É o Lucas que se percebe e se deixa entrever na narrativa através das intrusões do narrador. É a forma e a maneira que o autor real aparece ao leitor.
c) NARRADOR
É o condutor da narrativa, que, em no "Evangelho de Lucas", ora é o próprio Lucas (enquanto autor implícito), ora é um personagem (como Jesus em uma parábola).
d) NARRAÇÃO
É o conteúdo narrado ao narratário.
e) NARRATÁRIO
É o leitor ou ouvinte a quem a narração foi inicialmente projetada pelo autor e transmitida pelo narrador.
f) LEITOR IMPLÍCITO
É o leitor pensado ou imaginado pelo autor, mas que, não necessariamente, é, de fato, o leitor real. Está necessariamente atrelado ao tempo e ao contexto da época.
g) LEITOR REAL
Pode ser o leitor ao qual o autor determinou inicialmente escrever, mas também somos nós e os outros que ainda lerão ou ouvirão o "Evangelho de Lucas".
Um relato não é necessariamente puro reflexo de uma experiência. Ele oferece uma interpretação dela, e muitos relatos bíblicos buscam não só informar mas também formar: um relato enraíza-se efetivamente em determinado mundo bem como o quer transformar.
Assim deve-se ler e entender os evangelhos. Mas também as cartas paulinas e todos os outros livros.
Daí que, se fizermos isto com todos os textos, a fé da Igreja pode ser balançada. Destarte, é sobremaneira importante acreditarmos na Divina Inspiração das Escrituras (e, aqui, enseja-se a alínea "h", DEUS), sob pena de alicerçarmos nossa fé em colóquios flácidos para adormecer bovídeos!

sábado, 15 de novembro de 2014

Com Jonas, "post hoc ergo propter hoc" não foi uma falácia lógica


Post hoc ergo propter hoc

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
A expressão latina post hoc ergo propter hoc ("depois disso, logo causado por isso") é o nome de uma falácia lógica, também conhecida como correlação coincidente, que consiste na ideia de que dois eventos que ocorram em seqüência cronológica estão necessariamente interligados através de uma relação de causa e efeito[1] .
post hoc ergo propter hoc é um erro especialmente tentador, porque de fato a seqüência temporal parece ser parte integrante de causalidade. Entretanto, a falácia está em chegar a uma conclusão baseada unicamente na ordem dos acontecimentos, em vez de tomar em consideração outros fatores que possam excluir ou confirmar tal conexão.

Estrutura lógica

  • Quando A ocorre, B ocorre
  • Logo, A é a causa de B

Exemplos

  • O galo sempre canta antes do nascer do sol. Logo, o sol nasce porque o galo canta.
  • Uma pessoa se muda para uma república. Os antigos moradores da república então dizem: "Nós nunca tivemos problemas com o fogão até que você se mudou para cá. Logo você é a causa desse problema."

Referências


 

A vida de Jesus Cristo

A vida de Jesus Cristo


30 anos

de vida privada




3 anos

de vida pública




3 dias

de paixão e ressurreição

A ERRÂNCIA BÍBLICA

Só de passagem, para aqueles radicais mais radicais que defendem que o texto bíblico é inerrante, aqui, vai uma (somente uma) pequena observação: a leitura bíblica, como toda leitura, é sempre uma reconstrução a partir de dados fornecidos pelo relato real. Essa reconstrução diegesética (fabular ou histórica), inarredavelmente, busca preencher as lacunas informativas que o discurso ou relato original bíblico deixou ("sjuzet") ou descobrir os dados obumbrados pela máscara da tradução. Daí que a "Bíblia" tem erros. Daí que a Palavra de Deus é uma pessoa (Jesus), não um livro; uma mensagem, não um texto; um significado, não um significante.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

OS TEXTOS MAIS DIFÍCEIS DE HARMONIZAR NA BÍBLIA

"1Samuel" 16:14-23;17   -   Há duas explicações divergentes da presença de Davi na corte de Saul

"1Samuel" 24:1-23; 26:1-25   -   Há um duplo relato da recusa de Davi a vingar-se de Saul.

"1Reis" 17:17-24; "2Reis" 4:8-37   -   Há os relatos paralelos da cura de um enino realizada por Elias e Eliseu.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

3 critérios básicos da metodologia científica e suas implicações para a elaboração de trabalhos de conclusão de curso no curso de bacharel em Teologia


3 critérios básicos da metodologia científica e suas implicações para a elaboração de trabalhos de conclusão de curso no curso de bacharel em Teologia

 
Critério 1   -   neutralidade do conhecimento científico;
 
Critério 2   -   os dados devem ser passíveis de comprovação;
 
Critério 3   -   o conhecimento deve ser cumulativo e servir de ponto de partida para outros experimentos e pesquisas na área.
 
 
A Teologia tem problemas com os dois primeiros critérios, pois não é neutra e suas afirmações, quase sempre, não são passíveis de comprovação. Por isto, a Teologia nunca será considerada uma ciência. Os TCCs acabam sendo trabalhos de Linguística, Antropologia e/ou História com um toque de Teologia, e não o contrário. Ou seja, o produto acadêmico trai as expectativas originais e iniciais do aluno: quer-se falar de Deus com base nas ferramentas teológicas genuínas (Bíblia e Tradição), mas obriga-se a limitar e a encaixar o labor teológico numa área material e objetiva, concreta , empírica e acessecível à razão. O problema é que  o labor teológico (a Teologia) nem sempre se pode limitar e encaixar numa área material e objetiva, concreta e acessível à razão.
Porém estes critérios são, agora, exigências categoriais obrigatórias do pensamento humano, que não aceita mais afirmações dogmáticas soltas.

domingo, 9 de novembro de 2014

Catolicismo ou protestantismo? Qual escolher?

Catolicismo ou protestantismo? Qual escolher?

Este é o dilema de uma pequenina parte dos seminaristas e graduandos em Teologia. Tentaremos deixar o máximo de detalhes e explicações de lado, sob pena de sermos prolixos. Abaixo, seguem apenas as considerações mais basilares e determinantes, comuns a todos.

O catolicismo e o protestantismo, de modo geral:
a)      Delegam poderes extraordinários aos seus líderes (de um lado, padres perdoam até pecados; de outro, pastores são verdadeiros coronéis);
b)      São idólatras (de um lado, padres pregam o dogma da comunhão intercessora dos santos bem como sua veneração; de outro, pastores colocam Mamom no altar de Deus).

É óbvio que existem padres e pastores que não se enquadram nestes termos.
É óbvio também que cada caso é um caso e, no fim das contas, só Deus e você é podem analisar e decidir o melhor lugar.
Os católicos carecem de bibliocentrismo e cristocentrismo, devido ao extremo valor dado à Tradição. Os protestantes são bibliocêntricos e cristocêntricos, mas de modo muito ingênuo, desprezando a Tradição e o valor do Magistério.
Porém, como as doutrinas e a liturgia católicas são monolateralmente determinadas  e chanceladas pelo papa, é mais fácil caminhar livre e corretamente numa igreja protestante, numa que se afaste mais dos erros e valorize mais os acertos teológicos.
Existem igrejas protestantes menos piores e pastores bem preparados que lhe receberão com sabedoria e sem preconceitos maiores.
Heterodoxos ou hereges são a maioria dos católicos e dos protestantes. Não há igreja perfeita, por isto a igreja precisa ser mística, não material e institucionalizada.
É preciso abrir o espírito a novas influências!

No final das contas, todos têm razão quando considerados dos ângulos de contemplação dos fundamentos de suas teses. Mas o ecumenismo é o único caminho para a igreja institucionalizada passar a ser uma.

domingo, 2 de novembro de 2014

PALAVRAS ILUMINADAS PALAVRAS ILUMINADAS Os cristãos podem falar de si e de Deus. Quando falam de si, não é que seja sobre si, mas a partir de si; quando falam de Deus, nem sempre é sobre Deus, mas também a partir de Deus. Assim, todo relato, já na escolha dos fatos relatados, já nos pormenores omitidos ou enfatizados, intencionalmente ou não, traz o viés do julgamento do produtor do texto, que pode influenciar a opinião do leitor / ouvinte (des)atento. Mesmo relatando dados objetivos, o produtor do texto pode ser tendencioso e ele, mesmo sem estar mentindo, insinua seu julgamento pessoal pela seleção dos fatos que está reproduzindo ou pelo destaque maior que confere a certos pormenores. A escolha dos fatos e a ênfase atribuída a certos tipos de pormenores dá-se o nome de viés. Porém, em Filosofia, diz-se que a linguagem é "a casa do Ser" - "das Haus des Seins" -, na qual o Ser nos dirige a palavra como a nos indicar o modelo do que é preciso dizer para não tomarmos a linguagem particular do filósofo pelo "Ursprache" (língua original). Este é que devera inspirá-lo a fim de o Ser não lhe abandonar à linguagem originária ("Ursprache") e dessarte seu discurso realize uma "homoioûsis logô" (discurso semelhante). Ver Mt 10:20 Referências PLATÃO, Francisco & FIORIN, José Luiz. "Para entender o texto: leitura e redação", p. 250. JOLIVET, Régis. "Vocabulário de Filosofia".


PALAVRAS ILUMINADAS

Os cristãos podem falar de si e de Deus. Quando falam de si, não é que seja sobre si, mas a partir de si; quando falam de Deus, nem sempre é sobre Deus, mas também a partir de Deus.
Assim, todo relato, já na escolha dos fatos relatados, já nos pormenores omitidos ou enfatizados, intencionalmente ou não, traz o viés do julgamento do produtor do texto, que pode influenciar a opinião do leitor / ouvinte (des)atento. Mesmo relatando dados objetivos, o produtor do texto pode ser tendencioso e ele, mesmo sem estar mentindo, insinua seu julgamento pessoal pela seleção dos fatos que está reproduzindo ou pelo destaque maior que confere a certos pormenores. A escolha dos fatos e a ênfase atribuída a certos tipos de pormenores dá-se o nome de viés.
Porém, em Filosofia, diz-se que a linguagem é "a casa do Ser" - "das Haus des Seins" -, na qual o Ser nos dirige a palavra como a nos indicar o modelo do que é preciso dizer para não tomarmos a linguagem particular do filósofo pelo "Ursprache" (língua original). Este é que devera inspirá-lo a fim de o Ser não lhe abandonar à linguagem originária ("Ursprache") e dessarte seu discurso realize uma "homoioûsis logô" (discurso semelhante).

Ver Mt 10:20

Referências
PLATÃO, Francisco & FIORIN, José Luiz. "Para entender o texto: leitura e redação", p. 250.
JOLIVET, Régis. "Vocabulário de Filosofia".

Porque você deve ser contra à pena de morte



Um cristão pode ser a favor da pena de morte?

 

Um cristão jamais pode ser a favor da pena de morte, porque

a)      o cristão, assim como a Trindade Santa, deve focar seu pensamento e seu comportamento social na restauração, e não na condenação de vidas, como Jesus Cristo fez ao morrer por nós;

b)      executar uma pessoa é um ato de violência ilegítima e desproporcionada;

c)       se se admite que a vida humana é o bem mais precioso do homem, não se pode aceitar a pena de morte, uma vez que existe sempre a possibilidade de um erro jurídico e que, neste caso, seria irreparável.

Ver Gn 6:11; 49:5; Dt 21:5; 1Cr 12:17; Sl 7:16; 10:7; 58:2; 72:14; Pv 4:17; 13:2; 16:29; Jó 16:17; Mt 26:52; Rm 12:21; 1Ts 5:15   


http://youtu.be./watch?v=THm7JbxFp4o

http://youtu.be./watch?v=bLAjP3kz1qo
http://youtu.be./watch?v=j7__RIEdusQ

http://youtu.be./watch?v=afXfhWriX0k

http://youtu.be./watch?v=JOT-d8wUwos
http://youtu.be./watch?v=7f6pFZfsoEM

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Série CRÍTICA TEXTUAL: "Illa est genuina lectio, quae ceterarum originem explicat.".

"Quando nos deparamos com duas ou mais formas de um texto, a lição que consegue explicar como nasceram as variantes tem muito mais probabilidade de ser a original."

Em 2Samuel 9:7-11, o TM traz "à minha mesa". Porém, parece que o escriba repetiu erroneamente o possessivo "minha" dos vv. 7,10. Assim, no afã de estabelecer nexo, a LXX trouxe "à mesa de Davi" ou "à mesa do rei"; um manuscrito grego tardio traz "à sua mesa"; e a Vulgata "À tua mesa". Portanto, analisando a história da tradução e da transmissão do desta passagem do TM, conclui-se que a única alternativa coerente é "à sua mesa" e que a lição do TM deve ser aceita como a original, se bem que também deve ser modificada para gerar melhor significado. Deste modo, é esta lição (TM) que permitiu - com seu aparente erro de cópia - identificar as demais variae lectiones.

Série CRÍTICA TEXTUAL: "Lectio difformis a loco parallelo praestat conformi."

"Em textos paralelos, uma lição que diverge da do lugar paralelo prevalece sobre a que se lhe conforma"

Há sempre a tendência de harmonizar textos que são paralelos ou muito semelhantes. Assim, quando há diferenças, elas devem ser respeitadas.
O texto de 2Samuel 7:7 se assemelha ao de 1Crônicas 17:6. O primeiro traz "as tribos de Israel", o segundo "os juízes de Israel". Aqui, a LXX prevalece sobre o TM quando opta por "tribos".

Série CRÍTICA TEXTUAL: "Lectio brevior paestat longiori.".



"A lição mais breve prevalece sobre a mais longa."

Assim, em 1 Samuel 5:5, p.e., o TM diz que os sacerdotes de Dagon não punham os pés no templo. A LXX, porém, acrescenta "porque passavam além da soleira" para fazer uma explicação.

Série CRÍTICA TEXTUAL: "Lextio difficilior praestat facilior.".



"A lição mais difícil prevalece sobre uma mais fácil."

Sempre é mais explicável que o escriba ou o tradutor tenha procurado simplificar um texto difícil...

Lectio difficilior: lição atestada (ou conjectura) que se distinga de todas as outras lições atestadas (ou de todas as outras conjecturas) por causa do seu grau de dificuldade ou raridade do ponto de vista morfológico, semântico ou lexical. É um dos critérios do usus scribendi usados na selectio. O editor crítico tenderá a preferir a lectio difficilior, dado entender-se que deverá estar mais próxima do original, pois se pressupõe que, por ser rara e difícil, os copistas a tenham reproduzido com mais atenção, havendo tendência para conservá-la na tradição. No entanto, Fränkel aconselha alguns cuidados na adopção do critério da lectio difficilior: «o que é realmente plausível: que a lição estranha, porque mais difícil, se corrompeu numa mais fácil, ou que, pelo contrário, a lição estranha é difícil porque corrompida?». 

Lectio faciliorlição errada resultante da reinterpretação de uma lição menos comum por analogia com outra mais comum e que lhe é semelhante na forma. Por exemplo, eteridade > eternidade. 

Assim, em Êxodo 32:34 (TM), temos "para aquilo que te disse; já, na LXX, temos "para o lugar que te disse". Neste caso, o TM é preferível como lição mais difícil, e parece que a LXX acrescentou "o lugar" para tornar mais clara a ordem do Senhor.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Síntese da obra salvífica de Jesus Cristo _ Primeira parte: A obra terrena de Jesus Cristo


Material didático: apostila de Teologia Sistemática 2, do Prof. Dr. Nelson Célio Rocha
Aluno Prof. Alan Francisco de Souza Lemos






Síntese da obra salvífica de Jesus Cristo


          O NT pergunta: Quem é Cristo e qual sua função? “Jesus é designado no Novo Testamento de tantos modos, com vários títulos, entretanto, não podendo abarcar a totalidade de sua pessoa e obra, por si somente, num aspecto particular de sua pessoa. Todos os títulos encontram sua unidade na pessoa de Jesus” (p. 57, ls. 8-10).

1          -           A obra terrena de Jesus

a)      O profeta (πρoφήτης, prophḗtēs, איבנ, NABI)
Jesus era o próprio Deus falando, como Profeta. O próprio conceito de profeta, no contexto judaico (p. 58, l.1), cabia muito bem a Jesus: “homens visitados pelo Espírito Santo de Deus, que recebiam de Deus uma vocação particular, segundo se pode verificar no Antigo Testamento”. Este conceito, porém, destoava bastante de outros títulos atribuídos a Jesus e que promanaram das culturas grega e egípcia. Jesus não era um adivinho de adivinhações particulares ou “sob encomenda” (o anunciador do mundo helênico, πρoφήτης), mas falava a todo o povo e, por extensão, a toda a humanidade, em todos os tempos, já que, por ser o Criador, o Redentor e o Consumador de todas as coisas (João 1:3), falou à Criação. Assim também Jesus é o NABI, איבנ, o Áugure-mor que substituiu o alvo da esperança escatológica dos judeus de seu tempo, a saber, os textos dos antigos profetas (Joel 2:28ss). Todos estes profetas apontam para Jesus. Todas as suas profecias, dalgum modo, complementam-se, suplementam-se ou replementam-se no Evento-Cristo. Como o próprio Prof. Dr. Nelson Célio afirma em sua apostila, Jesus não era um profeta, mas o profeta; isto porque seu ministério era redentivo, único, suficiente e exemplar: “Esperava-se para o fim dos tempos um profeta único em que se realizaria toda a profecia anterior” (p. 58, ls. 24,25). Além disto, é no Evento-Cristo que todos os outros eventos históricos, todas as profecias, enfim, toda a Revelação ganha o completo e verdadeiro sentido, pois Ele é a consumação de todas as coisas (Mateus 13:40, 49; 28:20; Romanos 9:28; 1Coríntios 2:9; Hebreus 5:9; 9:26; 12:2; 2Pedro 3:10), como nos admoesta muito bem Horácio Simian-Yofre, citando o então cardeal Josef Ratzinger[1]:
“O princípio que funda essa continuidade é que somente a finalidade obtida e um processo permite entender o próprio processo. O ‘sentido que se manifesta no fim do movimento vai além do sentido que se podia extrair em qualquer etapa do percurso’ (p. 119). Na terminologia escolástica, isso significaria que a causa final precede à inteligibilidade das causas eficientes. Transferindo esse princípio à compreensão da história, pode-se concluir legitimamente que ‘a ação de Deus surge... como princípio de inteligibilidade da história’ (ibid.). Transferindo uma vez mais esse princípio ao estudo da Bíblia (sic), significaria que ‘o princípio que confere sentido à história é o evento histórico do Cristo... Toda a história e toda a Escritura devem ser pensadas a partir dessa ação’ do Cristo (ibid.)” – grifo meu.
Importa, outrossim e destarte, atinar para o fato conhecido de que, na cultura judaica do início do primeiro milênio, era comum a expectativa do retorno ou da revisitação dalgum profeta antigo; por isto, muitos diziam que Jesus era Elias ou mesmo João Batista) – cf. Mateus 16:15ss e par.; Deuteronômio 18:15; Malaquias 4:5; Atos dos apóstolos 3:22ss; 7:37). Assim, “A ideia do retorno à terra do mesmo profeta contribuiu para favorecer a certeza de que Jesus voltaria no fim do mundo” (p. 58, ls. 35,36) – o profeta do fim dos tempos (Mateus 21:46; 23:37; Marcos 6:4,14; Lucas 7:16). Assim, as obras de Jesus são as mesmas que os textos judaicos atribuíam à figura do profeta: operação de milagres, juntar as tribos de Israel, vencer as potências deste mundo e lutar contra o anticristo (p. 61, ls. 26-28).
A figura do profeta se atrela à do servo sofredor quando entendemos que, para o áugure divino, o sofrimento não é mais que uma consequência de sua pregação. É a característica principal do mártir cristão: sua pregação e seu ensino prendem-se por completo ao ato de ter consciência de que é necessário sofrer e morrer por seu povo.

b)     O servo de Deus (“Ebed Yahvé”, O Servo de Deus)
          Jesus, como Servo de Deus, não abriu sua boca (Servo Sofredor – cf. Isaías 53). Como diz o autor: “Servo de Deus é um dos títulos mais antigos relacionados à pessoa e à obra de Jesus” (p. 57, l. 12). Este segundo “ministério” de Jesus pode ser grosso modo sintetizado no conceito de substituição (à luz do sacrifício substitutivo judaico antigo no qual o cordeiro, imolado, morto, era o sucedâneo do pecador, levando sobre si os pecados deste último.
          A figura do Ebed Yahvé pode ser analisada, diacrônica e sincronicamente, de duas maneiras: no judaísmo e no cristianismo antigos.
          Quanto ao judaísmo antigo, no AT, pode-se encontrar tal personagem nos seguintes textos: Isaías 42:1-4; 49:1-7; 50:4-11; 52:13-53:12 (textos do Dêutero ou mesmo do Trito-Isaías). “Estes textos são importantes para se compreender o significado do batismo de Jesus, e também porque o Evangelho de Mateus contém citações de Isaias (Mt 12.18ss)”. Malgrado tentarem atrelar o Servo do Senhor ao Filho de Davi ou ao Moisés redivivo, ao próprio profeta-protagonista ou a uma especificada coletividade (Isaías 49:3) – como era comum no pensamento semita -, é de maior consenso que a figura do Servo aponta para Cristo; a maioria não tem a menor dúvida sobre isto.

“A história da salvação se desenvolve do começo ao fim segundo o princípio da substituição, segundo a forma de uma redução progressiva: da criação total, se passa à humanidade; da humanidade ao povo de Israel; do Povo de Israel ao resto; do remanescente a um só homem, Jesus.
Esse desenvolvimento da história da salvação é prefigurado pelo Ebed Yahvé, que é por sua vez: ‘resto’ e ‘indivíduo’.
O Ebed Yahvé é o Servo de Deus que sofre. Pelo seu sofrimento se substitui a um grande número de homens que deveriam sofrer em seu lugar. Assim, a Aliança concluída por Deus com seu povo é restabelecida, graças à obra substitutiva do Ebed. Ele é o mediador [2]  desta aliança.” (pp. 57,58).

          Assim, “O sofrimento do Profeta é consequente da sua pregação; já o do Ebed Yahvé é consequente de sua missão” (p. 58). Da mesma maneira, Jesus, como o Bom Pástor (João 10:8,12,18), “dá a vida pelas ovelhas”, e isto não é aceito pelos judeus, por não concernir ao modelo messiânico político. Jesus sabia que deveria morrer (Marcos 2:18ss)
            Já quanto ao cristianismo primitivo, são poucas as passagens bíblicas que esboçam Jesus como o Servo de Deus: Mateus 8:16ss (cf. Isaías 53:4); João 1.29; 2.19ss; 3.14,16; 10.11,17; 1Pedro 2:21; Romanos 5:12ss; 10:16; 15:3, 21; 1Coríntios 5:7; Filipenses 2:6ss, 19 (cf. Isaías 53:11). Em todas elas, os hagiógrafos neotestamentários mostram Jesus como o Cristo Sofredor, que cura e caminha valorosamente para seu martírio[3].
“Podemos afirmar que em Atos temos a solução mais antiga do problema cristológico (At 8.26). Prova que Jesus havia sido explicitamente identificado como o Ebed Yahvé no Sec. I, e que o próprio Jesus havia compreendido a sua missão” (p. 60)
            Desta maneira, o NT propõe a inseparabilidade entre a cruz e a ressurreição. A cristologia do Servo é a principal chave de leitura cristológica.
“A noção do Ebed Yahvé caracteriza a obra e a pessoa do Jesus histórico de uma maneira perfeitamente concorde ao testemunho cristológico do Novo Testamento.
A obra do Ebed Yahvé, por si mesma, basta como obra terrena, que anuncia em virtude de seu caráter decisivo as consequências que têm mais a ver com a obra terrenal de Jesus. Pode, perfeitamente, aliar-se às noções que fazem ressaltar a obra do Cristo presente, futuro e pré-existente” (p. 61).
               
           
c)      O Sumo Sacerdote (ἀrcieres)

Como Sumo Sacerdote, Jesus foi sacrificante e sacrifício simultaneamente. A figura do Sumo Sacerdote é judaica. Relaciona-se somente com o ministério terreno de Jesus[4] e é tipo do lendário Melquisedeque (Gênesis 14:18ss; Salmos 110:4; Hebreus 7). Mas Jesus não é apenas o Sumo Sacerdote; é também Rei; por isso, muitos O consideraram o Rei-Sacerdote, figura próxima a do Mestre da Justiça (Testamento dos Doze Patriarcas, Levi 18).
“O judaísmo conhecia um sacerdote ideal que devia consumar ao final dos tempos o sacerdócio judaico, como único e verdadeiro sacrificador.
O Sumo Sacerdote, o verdadeiro mediador entre Deus e o seu povo, ocupava uma posição soberanamente elevada. O judaísmo possuía na pessoa do Sumo Sacerdote um homem que já podia satisfazer, dentro do quadro cultual, a necessidade do povo, de um contato com Deus.  Mas, o sacerdote existente decepcionava as altas esperanças do povo. O povo aguardava com ansiedade um novo tempo, onde haveria a consumação de todas as coisas.  Destarte, é importante perceber como essa noção do Sumo Sacerdote foi transferida para Jesus” (p. 63).
            Eis outros textos utilizados: Mateus 12:6; Marcos 14:58; João 2:19,21.
“Jesus critica a prática sacerdotal que não condiz com a realidade do Reino de Deus. Essa crítica fazia parelha com a esperança de um sacerdote ideal, segundo o Salmo 110, que enfatiza o ‘Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque’. É um competidor contra o Sumo Sacerdote.
Esse tipo de sacerdote a Igreja identificou na pessoa de Jesus, o cumprimento do Salmo 110, constituindo-se importância capital para a Igreja Primitiva. Assim, foi de grande importância para o desenvolvimento da consciência que Jesus passou a ter de si mesmo: sabia que ele era o Rei-Sacerdote ‘segundo a ordem de Melquisedeque’” (p. 63).
               
Para os judeus, o sacerdócio era passageiro e imperfeito, mas, em Jesus Cristo, anunciou-se o sacerdócio que sobrepuja a imperfeição, como Hebreus mostra.



[1] “L’interpretazione bíblica in conflito”, tradução a partir do francês de seu texto original “Schriftauslegung im Widerstreit. Zur Frage nach Grundlagen und Weg der Exegese heute” em RATZINGER, J. Schriftauslegung im Widerstreit (Quaestiones disputatae 117), Feiburg-Basel-Wien, 1989, pp. 15-44. In: SIMIAN-YOFRE, H (Org.).  Metodologia do Antigo Testamento, 2ª edição,  Loyola, São Paulo, 2000, p. 22. [Título original: Metodologia dell’Antico Testamento, Centro Editoriale Dehoniano, Bologna, 1994.]
[2] Cf. a função do Mediador em de João Calvino: As Institutas ou Tratado da Religião Cristã, Volume II, páginas 101-127 e 230-300. O autor afirma que Cristo é único Mediador da redenção da humanidade eleita.
[3] Dietrich Bonhoeffer im August, teólogo-mártir alemão nascido em 1906, em sua obra Tentação [Versuchung. Bearbeitet und hrsg. von Eberhard Bethge. 3. Auflage. Kaiser, München 1956], vê, no Ebed, o Cristo Pro Nobis, isto é, para / por nós.
[4] Os adventistas, porém, creem que este sacerdócio jesuíno ganha complemento na sua “atividade” no céu, onde Ele prepara o Santuário Celestia para nós.