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sábado, 18 de julho de 2015
quarta-feira, 24 de junho de 2015
As Deficiências Linguísticas do Dicionário de Kittel
As Deficiências Linguísticas do Dicionário de Kittel
por Milton L. Torres, PhD
Apesar de o Dicionário Teológico do Novo Testamento (DTNT), de
Kittel, ter recebido críticas devastadoras a partir da década de
sessenta, os teólogos brasileiros, em sua maioria, permanecem alheios a
essas críticas e têm continuado a se referir a tal obra como se ela
continuasse a gozar da mesma reputação que tinha antes. Embora essas
críticas tenham sido enunciadas há tempo tanto, pareceu-me oportuno
trazê-las mais uma vez à atenção de nossos teólogos, a fim de
relembrá-los de que suas referências a Kittel não mais podem prescindir
de certo cuidado. A mera recorrência à obra assume contornos
intensamente problemáticos que não podem, em hipótese alguma, ser
ignorados. O DTNT continua a ser o dicionário teológico mais influente
entre os teólogos adventistas e seu formato e muitas de suas
deficiências foram reproduzidas em outras obras igualmente influentes,
como é o caso do dicionário teológico de Coenen e Brown (1981),
extremamente popular no Brasil por já se encontrar traduzido para o
português.
Barr (1961) foi o primeiro a sistematizar amplamente as incoerências linguísticas da obra de Kittel. Por causa da enorme influência de Kittel, Barr sente que os métodos correntemente usados na exegese bíblica dão evidência de um total desconhecimento dos princípios básicos da linguística e da semântica (CHILDS, 1961). Sua principal crítica é dirigida à ideia equivocada da singularidade da mentalidade hebraica. Segundo Barr (1961, p. 33), é extremamente ingênuo sugerir que a estrutura de uma língua possa refletir a mentalidade de um povo. Segundo ele, seria a mesma coisa de dizer que os turcos têm deficiência sexual porque sua língua não conhece diferenças de gênero. Outro aspecto, que também é duramente criticado por Barr, é a ideia de que a etimologia de uma palavra possa esconder uma subestrutura teológica.
O principal objetivo de Barr é eliminar a confusão que a obra de Kittel faz entre métodos teológicos e linguísticos. Segundo ele (1961, p. 5), a psicologia peculiar dos antigos israelitas, principalmente quando contrastada com a psicologia dos gregos, é tomada como sendo a chave tanto para os fenômenos linguísticos do hebraico quanto para a compreensão teológica da Bíblia. Assim, “problemas linguísticos básicos são ignorados, as línguas relevantes não são examinadas como um todo e o contraste entre o grego e o hebraico é distorcido porque é enfatizado sem levar em consideração uma escala linguística e um quadro de referência mais amplos” (SCOTT, 1962, p. 515-517). Barr constrói um caso contra os teólogos que se aventuram pelo terreno escorregadio da semântica bíblica sem o devido treinamento linguístico. De acordo com Scott (1962), os exemplos de Barr são, às vezes, divertidos. Apesar disso, são devastadores e de argumentação irrefutável. De acordo com Barr (1961, p. 270), a singularidade da linguagem e do pensamento bíblico deve ser estabelecida “pelas coisas que os autores dizem e não pelas palavras com as quais dizem essas coisas”. Por isso, para ele (1961, p. 272), a relação entre o significado das sentenças e o modo de sua expressão “é uma questão estilística”. Barr (p. 207) reclama que, a partir do que se percebe de seu vago prefácio, “Kittel parece nunca ter dado a devida atenção aos problemas linguísticos”, o que é inadmissível para alguém que se propôs escrever um dicionário.
As Dez Principais Deficiências do Dicionário de Kittel
As dez principais deficiências da obra de Kittel (1949) parecem esgotar os diversos erros passíveis de serem cometidos por um dicionário teológico do ponto de vista linguístico: (1) falta de articulação dos conceitos linguísticos; (2) negligência dos aspectos subjetivos e psicológicos da religião; (3) dependência excessiva da etimologia e das associações remotas; (4) falta de um método linguístico; (5) inconsistência terminológica; (6) oscilação entre os fenômenos linguísticos e as realidades teológicas; (7) tese de que “a linguagem do Novo Testamento tem, de forma bastante definida, um único propósito: expressar o que ocorreu, o que Deus realizou em Cristo” (KITTEL, 1949); (8) minimização das convenções sociais por causa da ideia de que as palavras são “vasos de cristal transparente cujo único propósito é fazer com que seu conteudo se torne visível” (KITTEL, 1949); (9) atribuição de papel autoritativo à etimologia; e (10) mau uso da lexicografia de Deissmann, praticamente distorcendo o que o famoso erudito postulou em relação à língua do NT. Como consequência dessas deficiências, a indicação semântica é negligenciada e os usos linguísticos não são percebidos. Por essas razões, Barr (1961, p. 215) chega à conclusão de que o DTNT não é, estritamente falando, um dicionário.
Exemplos das Deficiências do Dicionário de Kittel
A título de exemplificação, podem-se mencionar algumas situações encontradas na obra que refletem as deficiências descritas acima e outras tão comuns e igualmente prejudiciais ao efeito geral da obra.
Apelo injustificável ao sentido estrito. No caso de agathos (“bom”), a definição excessivamente dominada por dois textos (Mt 19:17 e Hb 9:11; 10:1) dá a entender que, no grego do NT, o termo só se emprega em relação a Deus ou à nova terra. Como a expressão também ocorre em relação à bondade dos homens (Mt 5:45), Grundmann, autor do verbete, argumenta que, “falando estritamente”, nada neste mundo merece o título de “bom”. De acordo com Barr (p. 220), “o apelo ao sentido ‘estrito’ é um apelo para que se passe por cima do que é, de fato, falado, em benefício de algo que parece teologicamente mais fundamental”. Dodd (1933, p. 283) já havia objetado especificamente a esse artigo, com a conclusão de que a falta de um método linguístico colabora para que o preconceito teológico se instale.
Oposição assimétrica. O Dicionário de Kittel estabelece um contraste indevido entre logos e mythos, no artigo escrito por Stählin. Com base na ocorrência dessas palavras em 1 Tm 4:6-7, Stählin postula que logos (“palavra”) tem que ter obrigatoriamente o sentido de alêtheia (“verdade”) porque, em contrapartida, mythos (“fábula”) tem sempre o sentido de “inverdade”. Essa suposição pode, no entanto, ser facilmente desmentida com recurso ao texto de 2 Tm 2:17, onde logos se refere ao discurso dos ímpios. Ou seja, há, nesse artigo, um caso de transferência ilegítima de totalidade. O articulista negligencia as relações sintáticas que estabeleceriam diferentes campos semânticos. Isto é, a oposição presente em 1 Tm 4:6-7 não se dá entre logos e mythos, mas entre hoi logoi tês pistêôs (“as palavras da fé”) e mythos. Embora mythos sempre se refira a uma inverdade, isso não significa que logos tenha por referência sempre uma verdade. De fato, o uso de ho logos com o artigo, no caso muito singular de João 1, produz um significado especial que não pode ser aplicado indiscriminadamente a outros casos simplesmente porque estes também contêm a palavra. Segundo Barr (p. 222), “uma simples relação sintática como o acréscimo de um artigo e a ausência de outra qualificação pode estabelecer um campo semântico tão diferente quanto aquele que seria criado pelo emprego de uma palavra diferente”.
Oposições distorcidas entre o grego helenístico e o grego do judaismo. No artigo sobre anagkê (“necessidade”) enfatiza-se o sentido abstrato da palavra no contexto do pensamento grego, e seu sentido concreto no contexto do pensamento hebraico. Por seu silêncio em relação ao uso concreto do termo no pensamento grego, o artigo acaba degradando a originalidade do mesmo e acentuando distinções que não se sustentam. A suposição moderna de que o pensamento grego tende ao abstrato e de que o pensamento hebraico tende ao concreto, aliada à imprecisão da metodologia linguística, acaba por criar predisposições teológicas que, de outra forma, não existiriam.
Exagero ao contexto helenístico quando conveniente. Na intenção de provar que a criação do mundo foi ex nihilo (“do nada”), o artigo sobre o verbo ktizô (“criar”) exagera seu uso no grego helenístico em relação à fundação de cidades. Nesse contexto, o verbo enfatizaria a atuação voluntária de um soberano no intuito de criar uma pólis onde antes não havia pólis alguma. Para realçar essa ideia, o articulista alega que é devido ao contexto da criação como fundação de uma comunidade que a Septuaginta (LXX) e o NT se abstêm de empregar o termo dêmiourgos (“artífice”), pois este enfatizaria a criação a partir de uma matéria preexistente. Trata-se, porém, de um argumento do silêncio que passa por alto que essa palavra tinha um sentido depreciativo no contexto helenístico por causa da objeção da aristocracia às atividades que envolviam o trabalho manual. Outro exemplo de exagero ao contexto helenístico pode ser visto no caso do verbete kairos (“período de tempo”). Segundo Barr (p. 226), a atratividade à teologia bíblica moderna da ideia de um tempo de decisão, ou de um momento para a atuação de Deus com Sua intervenção decisiva, levou o articulista a maximizar o sentido de “tempo crítico” de kairos mesmo diante do fato bem conhecido de que este sentido da palavra predominou no período clássico, mas não no período do NT, e de que esse uso linguístico não pode ser reconciliado com o de nenhuma palavra conhecida do hebraico antigo.
Anacronismos. O artigo de Schlier sobre a palavra hairesis (“partido”) a analisa à luz do preconceito com ela associado em épocas posteriores, cujo resultado foi entendê-la como “heresia”. O argumento do articulista não foi que a igreja era contra a formação de partidos, mas que o termo se opunha à palavra ekklêsia (“igreja”). A semântica é, então, abandonada em favor de uma história do conceito de heresia no cristianismo. Trata-se de mera fetichização, uma vez que, ao afirmar que se a ekklêsia tolerar hairesis, ela mesma se torna uma hairesis, Schlier não fornece a menor evidência de que esse sentido tenha sido formulado no período do NT.
Ênfase na história dos conceitos em vez de na história das palavras. O DTNT tem uma tendência à ênfase doutrinária por meio da história dos conceitos mais importantes da teologia sistemática. Assim, o artigo sobre hamartia (“pecado”) se torna uma exposição sobre a doutrina do pecado e o artigo sobre apokalyptô (“revelar”), uma exposição sobre a doutrina da revelação. De acordo com Barr (p. 231), a concentração nos usos teológicos das palavras produz seus resultados mais peculiares com palavras de aplicação geral como os advérbios, as preposições e as partículas. Isso levou Lindeskog (1936, p. 134) a declarar que, na análise dessas palavras, o Dicionário de Kittel se aproxima de um misticismo bíblico que, embora sublime, nada tem que ver com a realidade linguística das mesmas.
Confusão entre realidade linguística e realidade teológica. A explicação dada ao fato de que tanto a palavra paramytheomai quanto a palavra parakaleô tenham dois sentidos (“consolar” e “exortar”) se prende à ideia de que a consolação e a exortação sejam dois elementos intrínsecos à mensagem do NT. Ora, com isso, se dá uma explicação teológica para um fato linguístico adventício. Isto é, a consolação e a exortação são mesmo elementos indispensáveis à mensagem evangélica, mas não é essa a razão por que essas duas palavras têm ambos os significados. A relação entre consolação e exortação se manteria a mesma ainda que palavras diferentes fossem usadas, como acontece em português: “consolar” e “exortar”.
Transferência ilegítima de identidade. Mesmo quando existem artigos sobre expressões complexas como pais theou (“filho de Deus”) e laos theou (“povo de Deus”), essas expressões ainda são tratadas como se fossem palavras isoladas, sem consideração do contexto em que ocorrem. Assim, por exemplo, o contraste indevido entre laos (“povo”) e ethnos (“nação”) produz o resultado de fazer com que o significado de laos pareça ser sempre “povo de Deus” enquanto que o de ethnos (“nação”) pareça ser sempre “nação pagã”.
Etimologização. Baseado no fato de que logos (“palavra”) e legô (“dizer, colher, recolher”) têm a mesma origem etimológica, Kleinknecht (KITTEL, 1949, v. 4, p. 76) propõe que a palavra logos tenha o sentido básico de “coleção” a fim de explicá-la como significando “razão crítica e seletiva”. No entanto, não existe nenhuma ocorrência de logos na literatura antiga com esse sentido. Da mesma forma, embora Schlier admita que anakephalaioomai (“resumir”) se relacione etimologicamente a kephalaion (“resumo”) e não a kephalê (“cabeça”), ele não resiste à tentação de interpretar essa palavra de modo a relacioná-la a kephalê (“cabeça”). Com isso, ele pretende apresentar uma interpretação teológica mais espiritual para Ef 1:10. De acordo com Barr (p. 237-238), “é mais provável que Schlier, vendo a conexão entre a designação de Cristo como cabeça [Ef 1:22] e a soma de todas as coisas, não resistiu ao ímpeto de apontar... uma ‘relação’ etimológica entre as palavras gregas e de basear sua exposição em tal relação, embora soubesse que se tratava de uma etimologia incorreta”. Esse ponto já havia sido discutido antes por Dodd (1938, p. 293), com a mesma conclusão.
Considerações Finais
De acordo com Barr (1961, p. 231), a maior fraqueza do DTNT é seu fracasso de não conseguir relacionar as palavras que estuda a seus respectivos contextos semânticos. Além disso, é inadmissível que uma obra que se propõe servir de dicionário possa imaginar que o valor semântico das palavras deverá invariavelmente iluminar e concordar com os contornos de uma estrutura teológica que é considerada característica do NT e antagônica ao ambiente helenístico. Segundo Barr (1961, p. 233):
Parece claro que o próprio Kittel e o DTNT em geral tinham o propósito de integrar ou demonstrar a integração de usos linguísticos detalhados do NT e o profundo e vivo pensamento teológico do NT. No entanto, nunca parece lhes ter ocorrido que um léxico, como um livro organizado em torno de palavras, não se presta a esse propósito. O pensamento teológico do tipo encontrado no NT tem sua expressão linguística característica não nas palavras individualmente, mas na combinação de palavras, isto é, na sentença. O grau em que uma palavra individual pode se relacionar diretamente ao pensamento teológico depende consideravelmente do grau em que a palavra já se tornou um termo técnico. O grau em que isso ocorreu no NT pode ser debatido. No entanto, o próprio Kittel era da opinião, de acordo com o consenso geral, de que inúmeros elementos importantes do vocabulário do NT não eram técnicos no sentido de muitos termos da teologia posterior. Sob essas condições, a tentativa de relacionar uma palavra individual diretamente a um conceito teológico produz a distorção da contribuição semântica das palavras em seu contexto; o valor do contexto passa a ser visto como algo que a palavra determina e, assim, introduz-se no contexto um sentido que não estava originalmente presente no texto.
Apesar das revisões a que o DTNT tem sido submetido, o ideal seria que um novo dicionário teológico fosse preparado para o NT. Barr (p. 235-236) sugere brevemente que tal dicionário deveria ser organizado por campos semânticos. Segundo ele, haveria quatro grandes razões para isso: (1) evitar separar palavras com significados equivalentes; (2) economizar espaço, uma vez que o pano de fundo teológico de várias palavras é o mesmo; (3) evitar agrupar apenas palavras cognatas; e (4) evitar etimologização.
Barr (1961) foi o primeiro a sistematizar amplamente as incoerências linguísticas da obra de Kittel. Por causa da enorme influência de Kittel, Barr sente que os métodos correntemente usados na exegese bíblica dão evidência de um total desconhecimento dos princípios básicos da linguística e da semântica (CHILDS, 1961). Sua principal crítica é dirigida à ideia equivocada da singularidade da mentalidade hebraica. Segundo Barr (1961, p. 33), é extremamente ingênuo sugerir que a estrutura de uma língua possa refletir a mentalidade de um povo. Segundo ele, seria a mesma coisa de dizer que os turcos têm deficiência sexual porque sua língua não conhece diferenças de gênero. Outro aspecto, que também é duramente criticado por Barr, é a ideia de que a etimologia de uma palavra possa esconder uma subestrutura teológica.
O principal objetivo de Barr é eliminar a confusão que a obra de Kittel faz entre métodos teológicos e linguísticos. Segundo ele (1961, p. 5), a psicologia peculiar dos antigos israelitas, principalmente quando contrastada com a psicologia dos gregos, é tomada como sendo a chave tanto para os fenômenos linguísticos do hebraico quanto para a compreensão teológica da Bíblia. Assim, “problemas linguísticos básicos são ignorados, as línguas relevantes não são examinadas como um todo e o contraste entre o grego e o hebraico é distorcido porque é enfatizado sem levar em consideração uma escala linguística e um quadro de referência mais amplos” (SCOTT, 1962, p. 515-517). Barr constrói um caso contra os teólogos que se aventuram pelo terreno escorregadio da semântica bíblica sem o devido treinamento linguístico. De acordo com Scott (1962), os exemplos de Barr são, às vezes, divertidos. Apesar disso, são devastadores e de argumentação irrefutável. De acordo com Barr (1961, p. 270), a singularidade da linguagem e do pensamento bíblico deve ser estabelecida “pelas coisas que os autores dizem e não pelas palavras com as quais dizem essas coisas”. Por isso, para ele (1961, p. 272), a relação entre o significado das sentenças e o modo de sua expressão “é uma questão estilística”. Barr (p. 207) reclama que, a partir do que se percebe de seu vago prefácio, “Kittel parece nunca ter dado a devida atenção aos problemas linguísticos”, o que é inadmissível para alguém que se propôs escrever um dicionário.
As Dez Principais Deficiências do Dicionário de Kittel
As dez principais deficiências da obra de Kittel (1949) parecem esgotar os diversos erros passíveis de serem cometidos por um dicionário teológico do ponto de vista linguístico: (1) falta de articulação dos conceitos linguísticos; (2) negligência dos aspectos subjetivos e psicológicos da religião; (3) dependência excessiva da etimologia e das associações remotas; (4) falta de um método linguístico; (5) inconsistência terminológica; (6) oscilação entre os fenômenos linguísticos e as realidades teológicas; (7) tese de que “a linguagem do Novo Testamento tem, de forma bastante definida, um único propósito: expressar o que ocorreu, o que Deus realizou em Cristo” (KITTEL, 1949); (8) minimização das convenções sociais por causa da ideia de que as palavras são “vasos de cristal transparente cujo único propósito é fazer com que seu conteudo se torne visível” (KITTEL, 1949); (9) atribuição de papel autoritativo à etimologia; e (10) mau uso da lexicografia de Deissmann, praticamente distorcendo o que o famoso erudito postulou em relação à língua do NT. Como consequência dessas deficiências, a indicação semântica é negligenciada e os usos linguísticos não são percebidos. Por essas razões, Barr (1961, p. 215) chega à conclusão de que o DTNT não é, estritamente falando, um dicionário.
Exemplos das Deficiências do Dicionário de Kittel
A título de exemplificação, podem-se mencionar algumas situações encontradas na obra que refletem as deficiências descritas acima e outras tão comuns e igualmente prejudiciais ao efeito geral da obra.
Apelo injustificável ao sentido estrito. No caso de agathos (“bom”), a definição excessivamente dominada por dois textos (Mt 19:17 e Hb 9:11; 10:1) dá a entender que, no grego do NT, o termo só se emprega em relação a Deus ou à nova terra. Como a expressão também ocorre em relação à bondade dos homens (Mt 5:45), Grundmann, autor do verbete, argumenta que, “falando estritamente”, nada neste mundo merece o título de “bom”. De acordo com Barr (p. 220), “o apelo ao sentido ‘estrito’ é um apelo para que se passe por cima do que é, de fato, falado, em benefício de algo que parece teologicamente mais fundamental”. Dodd (1933, p. 283) já havia objetado especificamente a esse artigo, com a conclusão de que a falta de um método linguístico colabora para que o preconceito teológico se instale.
Oposição assimétrica. O Dicionário de Kittel estabelece um contraste indevido entre logos e mythos, no artigo escrito por Stählin. Com base na ocorrência dessas palavras em 1 Tm 4:6-7, Stählin postula que logos (“palavra”) tem que ter obrigatoriamente o sentido de alêtheia (“verdade”) porque, em contrapartida, mythos (“fábula”) tem sempre o sentido de “inverdade”. Essa suposição pode, no entanto, ser facilmente desmentida com recurso ao texto de 2 Tm 2:17, onde logos se refere ao discurso dos ímpios. Ou seja, há, nesse artigo, um caso de transferência ilegítima de totalidade. O articulista negligencia as relações sintáticas que estabeleceriam diferentes campos semânticos. Isto é, a oposição presente em 1 Tm 4:6-7 não se dá entre logos e mythos, mas entre hoi logoi tês pistêôs (“as palavras da fé”) e mythos. Embora mythos sempre se refira a uma inverdade, isso não significa que logos tenha por referência sempre uma verdade. De fato, o uso de ho logos com o artigo, no caso muito singular de João 1, produz um significado especial que não pode ser aplicado indiscriminadamente a outros casos simplesmente porque estes também contêm a palavra. Segundo Barr (p. 222), “uma simples relação sintática como o acréscimo de um artigo e a ausência de outra qualificação pode estabelecer um campo semântico tão diferente quanto aquele que seria criado pelo emprego de uma palavra diferente”.
Oposições distorcidas entre o grego helenístico e o grego do judaismo. No artigo sobre anagkê (“necessidade”) enfatiza-se o sentido abstrato da palavra no contexto do pensamento grego, e seu sentido concreto no contexto do pensamento hebraico. Por seu silêncio em relação ao uso concreto do termo no pensamento grego, o artigo acaba degradando a originalidade do mesmo e acentuando distinções que não se sustentam. A suposição moderna de que o pensamento grego tende ao abstrato e de que o pensamento hebraico tende ao concreto, aliada à imprecisão da metodologia linguística, acaba por criar predisposições teológicas que, de outra forma, não existiriam.
Exagero ao contexto helenístico quando conveniente. Na intenção de provar que a criação do mundo foi ex nihilo (“do nada”), o artigo sobre o verbo ktizô (“criar”) exagera seu uso no grego helenístico em relação à fundação de cidades. Nesse contexto, o verbo enfatizaria a atuação voluntária de um soberano no intuito de criar uma pólis onde antes não havia pólis alguma. Para realçar essa ideia, o articulista alega que é devido ao contexto da criação como fundação de uma comunidade que a Septuaginta (LXX) e o NT se abstêm de empregar o termo dêmiourgos (“artífice”), pois este enfatizaria a criação a partir de uma matéria preexistente. Trata-se, porém, de um argumento do silêncio que passa por alto que essa palavra tinha um sentido depreciativo no contexto helenístico por causa da objeção da aristocracia às atividades que envolviam o trabalho manual. Outro exemplo de exagero ao contexto helenístico pode ser visto no caso do verbete kairos (“período de tempo”). Segundo Barr (p. 226), a atratividade à teologia bíblica moderna da ideia de um tempo de decisão, ou de um momento para a atuação de Deus com Sua intervenção decisiva, levou o articulista a maximizar o sentido de “tempo crítico” de kairos mesmo diante do fato bem conhecido de que este sentido da palavra predominou no período clássico, mas não no período do NT, e de que esse uso linguístico não pode ser reconciliado com o de nenhuma palavra conhecida do hebraico antigo.
Anacronismos. O artigo de Schlier sobre a palavra hairesis (“partido”) a analisa à luz do preconceito com ela associado em épocas posteriores, cujo resultado foi entendê-la como “heresia”. O argumento do articulista não foi que a igreja era contra a formação de partidos, mas que o termo se opunha à palavra ekklêsia (“igreja”). A semântica é, então, abandonada em favor de uma história do conceito de heresia no cristianismo. Trata-se de mera fetichização, uma vez que, ao afirmar que se a ekklêsia tolerar hairesis, ela mesma se torna uma hairesis, Schlier não fornece a menor evidência de que esse sentido tenha sido formulado no período do NT.
Ênfase na história dos conceitos em vez de na história das palavras. O DTNT tem uma tendência à ênfase doutrinária por meio da história dos conceitos mais importantes da teologia sistemática. Assim, o artigo sobre hamartia (“pecado”) se torna uma exposição sobre a doutrina do pecado e o artigo sobre apokalyptô (“revelar”), uma exposição sobre a doutrina da revelação. De acordo com Barr (p. 231), a concentração nos usos teológicos das palavras produz seus resultados mais peculiares com palavras de aplicação geral como os advérbios, as preposições e as partículas. Isso levou Lindeskog (1936, p. 134) a declarar que, na análise dessas palavras, o Dicionário de Kittel se aproxima de um misticismo bíblico que, embora sublime, nada tem que ver com a realidade linguística das mesmas.
Confusão entre realidade linguística e realidade teológica. A explicação dada ao fato de que tanto a palavra paramytheomai quanto a palavra parakaleô tenham dois sentidos (“consolar” e “exortar”) se prende à ideia de que a consolação e a exortação sejam dois elementos intrínsecos à mensagem do NT. Ora, com isso, se dá uma explicação teológica para um fato linguístico adventício. Isto é, a consolação e a exortação são mesmo elementos indispensáveis à mensagem evangélica, mas não é essa a razão por que essas duas palavras têm ambos os significados. A relação entre consolação e exortação se manteria a mesma ainda que palavras diferentes fossem usadas, como acontece em português: “consolar” e “exortar”.
Transferência ilegítima de identidade. Mesmo quando existem artigos sobre expressões complexas como pais theou (“filho de Deus”) e laos theou (“povo de Deus”), essas expressões ainda são tratadas como se fossem palavras isoladas, sem consideração do contexto em que ocorrem. Assim, por exemplo, o contraste indevido entre laos (“povo”) e ethnos (“nação”) produz o resultado de fazer com que o significado de laos pareça ser sempre “povo de Deus” enquanto que o de ethnos (“nação”) pareça ser sempre “nação pagã”.
Etimologização. Baseado no fato de que logos (“palavra”) e legô (“dizer, colher, recolher”) têm a mesma origem etimológica, Kleinknecht (KITTEL, 1949, v. 4, p. 76) propõe que a palavra logos tenha o sentido básico de “coleção” a fim de explicá-la como significando “razão crítica e seletiva”. No entanto, não existe nenhuma ocorrência de logos na literatura antiga com esse sentido. Da mesma forma, embora Schlier admita que anakephalaioomai (“resumir”) se relacione etimologicamente a kephalaion (“resumo”) e não a kephalê (“cabeça”), ele não resiste à tentação de interpretar essa palavra de modo a relacioná-la a kephalê (“cabeça”). Com isso, ele pretende apresentar uma interpretação teológica mais espiritual para Ef 1:10. De acordo com Barr (p. 237-238), “é mais provável que Schlier, vendo a conexão entre a designação de Cristo como cabeça [Ef 1:22] e a soma de todas as coisas, não resistiu ao ímpeto de apontar... uma ‘relação’ etimológica entre as palavras gregas e de basear sua exposição em tal relação, embora soubesse que se tratava de uma etimologia incorreta”. Esse ponto já havia sido discutido antes por Dodd (1938, p. 293), com a mesma conclusão.
Considerações Finais
De acordo com Barr (1961, p. 231), a maior fraqueza do DTNT é seu fracasso de não conseguir relacionar as palavras que estuda a seus respectivos contextos semânticos. Além disso, é inadmissível que uma obra que se propõe servir de dicionário possa imaginar que o valor semântico das palavras deverá invariavelmente iluminar e concordar com os contornos de uma estrutura teológica que é considerada característica do NT e antagônica ao ambiente helenístico. Segundo Barr (1961, p. 233):
Parece claro que o próprio Kittel e o DTNT em geral tinham o propósito de integrar ou demonstrar a integração de usos linguísticos detalhados do NT e o profundo e vivo pensamento teológico do NT. No entanto, nunca parece lhes ter ocorrido que um léxico, como um livro organizado em torno de palavras, não se presta a esse propósito. O pensamento teológico do tipo encontrado no NT tem sua expressão linguística característica não nas palavras individualmente, mas na combinação de palavras, isto é, na sentença. O grau em que uma palavra individual pode se relacionar diretamente ao pensamento teológico depende consideravelmente do grau em que a palavra já se tornou um termo técnico. O grau em que isso ocorreu no NT pode ser debatido. No entanto, o próprio Kittel era da opinião, de acordo com o consenso geral, de que inúmeros elementos importantes do vocabulário do NT não eram técnicos no sentido de muitos termos da teologia posterior. Sob essas condições, a tentativa de relacionar uma palavra individual diretamente a um conceito teológico produz a distorção da contribuição semântica das palavras em seu contexto; o valor do contexto passa a ser visto como algo que a palavra determina e, assim, introduz-se no contexto um sentido que não estava originalmente presente no texto.
Apesar das revisões a que o DTNT tem sido submetido, o ideal seria que um novo dicionário teológico fosse preparado para o NT. Barr (p. 235-236) sugere brevemente que tal dicionário deveria ser organizado por campos semânticos. Segundo ele, haveria quatro grandes razões para isso: (1) evitar separar palavras com significados equivalentes; (2) economizar espaço, uma vez que o pano de fundo teológico de várias palavras é o mesmo; (3) evitar agrupar apenas palavras cognatas; e (4) evitar etimologização.
BARR, James. The semantics of Biblical languages. Oxford: Oxford University Press, 1961.
COENEN, Lothar; BROWN, Colin (Eds). O novo dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. Tradução: Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1981.
CHILDS, Brevard S. Book review: the semantics of Biblical languages. Journal of Biblical Literature. v. 80, n. 4, p. 374-377, 1961.
DODD, C. H. Reviews. The Journal of Theological Studies. v. 34, n. 135, p. 280-285, 1933.
_________. Reviews. The Journal of Theological Studies. v. 39, n. 155, p. 287-293, 1938.
KITTEL, Gerhard (Ed.). Theologisches Wörterbuch zum Neuen Testament. Sttutgart: Kohlhammer, 1949-1969.
LINDESKOG, Gösta. SvExAb. v. 1, p. 134, 1936.
SCOTT, R. B. Y. Book review: the semantics of Biblical languages. Theology Today. Princeton N. J., v. 18, n. 1, p. 515-517, 1962.
(escrito originalmente em 6/5/2009)
quinta-feira, 11 de junho de 2015
As respostas culturais da igreja ["Igreja centrada", de Timothy Keller, editora Vida Nova.]
Igreja centrada, de Timothy
Keller, editora Vida Nova.
Capítulo
16: As respostas culturais da igreja
RELATÓRIO DE
LEITURA
Alan Francisco de
Souza Lemos
Bem... pra começar, o livro é bom. Muito bom.
E, antes de resenhar o capítulo 16, faço desfilar minhas considerações
prolegomenares:
a)
Igreja ou igreja. Ao iniciar minha leitura, tive a
dificuldade de saber sobre qual dos dois termos ou conceitos Timothy Keller
está se referindo. Mais à frente, malgrado, esta dúvida será dirimida. Contudo,
este é um problema e uma displicência recorrente na maioria dos autores
protestantes. Muitas vezes, por ignorância e/ou por desonestidade intelectual,
fazem uso do termo de maneira a desconsiderar que, enquanto o vocábulo Igreja refere-se àquela que é a herdeira
da promessa e, ao mesmo tempo, o corpo místico de Cristo, do qual Ele é o
cabeça, o vocábulo igreja usualmente
designa a instituição ou a comunidade eclesial temporal. Assim, quando lemos o
título, não sabemos se o autor quer
nos mostrar quais são as respostas culturais da Igreja ou da igreja, ou seja,
quais são as respostas do corpo místico de Cristo ou da instituição temporal
histórica. Tais respostas são as que são dadas pela noiva do Cordeiro ou as que são dadas pela comunidade de fé variegada
e controversa. E, se tais respostas são as dadas pela comunidade de fé
temporal, de que comunidade Keller está falando? De uma denominação
protestante? De todas as denominações protestantes? Da maioria das denominações
protestantes? Só da Igreja Católica Apostólica Romana? Ou de todas? Lembrando,
ainda, que, em alguns contextos teológicos, o termo Igreja também pode se referir às duas coisas simultaneamente, ou
seja, à instituição temporal e à instituição espiritual (neste caso, o termo
comportaria a ação e a reação tanto da Igreja Protestante quanto da Igreja
Católica Apostólica Romana). Esta obumbrosidade,
no entanto, é non sense, já que,
supondo que o autor esteja falando das respostas que a Igreja dá, estas são
dadas necessariamente pela igreja (pelos crentes ou sacerdotes).[1] Assim, pode-se concluir
que a expressão que enseja o título deve preferencialmente ser interpretada
assim: AS RESPOSTAS CULTURAIS DOS CRENTES.
b)
Como
ocorre na maioria das literaturas, mormente nos editoriais protestantes, o
capítulo 16 oferece, consideravelmente, a opinião do autor, isto é, o seu ponto
de vista, sua mundivisão. É comum, até, que os autores escrevam pouco do que a Bíblia e a Tradição têm a dizer e muito
do que eles mesmos têm a dizer, baseados nas suas experiências e na sua bagagem
de leitura. Digo, pois, que isto não pode conflitar com aquilo. Se o que
Timothy Keller nos disser contrariar ou adulterar os cânones mais respeitados,
ratificados e reverenciados da Igreja, isto deve ser visto com cautela e
desconfiança. Assim é, por exemplo, no início do capítulo, quando Keller expõe
quatro maneiras de responder à pergunta sobre como devemos nos relacionar com a
cultura. O leitor, aqui, precisa ler atentamente a opinião de Keller e comparar com as demais opiniões de outros
autores sobre o mesmo tema além de, principalmente, averiguar o que dizem a Bíblia e a Tradição Cristã sobre o
assunto.
c)
Quero
outrossim parabenizar especialmente o editor e o diagramador da versão
brasileira, pois o conteúdo do livro é muito bem exposto e igualmente bem
disposto nas páginas, com o auxílio visual de caixas de texto e referências
contextuais (que destacam fragmentos do texto principal para a melhor elucidação
ao leitor).
Timothy Keller
inicia o capítulo apresentando, à guisa de comparação, a sua proposta
analisadora do engajamento cultural da igreja e a proposta de Niebuhr para um
bastante semelhante. Keller adota, como já fora apresentado em capítulos anteriores,
suas quatro maneiras, ou melhor, seus quatro modelos sócio-eclesiais: I -
o modelo
transformacionista, II - o modelo da relevância, III -
o modelo contracultural e IV - o modelo dos dois reinos.
Com estes confrontam-se os modelos niebuhrianos:
Cristo
contra a cultura, Cristo da cultura, Cristo acima da cultura, Cristo
e cultura em paradoxo e Cristo
transformando a cultura. Keller reconhece o grande esforço de Niebuhr,
mas faz uma crítica à ação de estabelecer modelos sócio-eclesiais, já que “Quando retornamos do plano hipotético para
a rica complexidade dos acontecimentos individuais, fica logo evidente que
nenhuma pessoa ou grupo jamais se conforma totalmente a um tipo” e que tais
esboços contém sempre “armadilhas”.
Esta crítica o próprio Niebuhr teria feito.
“Então,
por que fazer uso de modelos? Porque cada modelo traz consigo um tema ou uma
verdade bíblica orientadora que ajuda os cristãos a se relacionarem com a
cultura.”
Mas os modelos,
contudo, também são limitados e limitadores. Não dão conta de enquadrar a
variedade da descrição. Os modelos são simples, o conteúdo deles, porém, é
complexo. O corolário disto é uma variedade de posicionamentos dentro de um
mesmo modelo ou tipo.
Após a exposição
das críticas de outros estudiosos de Niebuhr, como D. A. Carson e James Hunter,
Timothy Keller, enfim, começa sua apresentação detalhada de seus quatro
modelos.
I - “O modelo
transformacionista interage com a cultura principalmente frisando que os
cristãos devem exercer suas profissões a partir de uma cosmovisão cristã e,
assim, transformar a cultura.”:
é quase a mesma coisa que o Cristo-transformando-a-cultura[2]
de Niebuhr. Depois, Keller começa a sua crítica ao modelo transformacionista, dizendo: a) que o “conceito de cosmovisão do modelo
transformacionista é demasiadamente cognitivo”, b) que “é geralmente marcado por ‘uma depreciação
da igreja’”, c) que “é propenso ao
triunfalismo, à justiça própria e à confiança excessiva tanto em sua capacidade
de entender a vontade de Deus para a sociedade quanto em colocá-la em prática,
d)
que “tem dado valor excessivo à
política como meio de mudar a cultura” e e) que “não reconhece os perigos do poder”.
Um exemplo de
comunidade eclesial que se alinha com a descrição acima feita é a chamada direita cristã estadunidense. Aqui no
Brasil, não vejo alguma comunidade de fé que esteja irmanada com tais ideais,
pelo menos não na mesma intensidade, mas a que mais se aproxima do modelo
transformacionista talvez seja a ortodoxia católica.
II - O modelo da relevância de Timothy Keller
abarca os modelos Cristo-da-cultura e Cristo-acima-da-cultura de Niebuhr.
IIa - Enquanto Cristo-da-cultura, o modelo da
relevância de Keller enxerga a IP como estando bem à vontade tanto dentro
quanto fora da igreja, isto por que, para tal modelo contemporâneo de
engajamento cultural, “o cristianismo é
compatível de modo fundamental com a cultura circundante.”. Deus redime
todo e qualquer movimento cultural incompatível (e, quiçá, até contrário) ao
movimento evangélico, harmonizando os opostos sobre a “asserção da unidade e da ordem mundial, em movimentos éticos pela
abnegação e pelo cuidado com o bem comum e em questões políticas pela justiça.”.
Mesmo tais movimentos e comportamentos sendo patentemente diferentes ou
contrários à ética cristã, os correligionários deste modus cognoscendi veem tais fenômenos não como opostos ao
Evangelho, mas como obra do Espírito de Deus! Para Niebuhr, alinham-se a esta
filosofia a teologia liberal (TL) e
a teologia da libertação (TDL), que,
a nosso ver, também é uma manifestação liberal. Aqui no Brasil, a Teologia da
Missão Integral (MIT) não é adepta do modelo da relevância de Keller, mas
aproxima-se perigosamente.
IIb - Enquanto Cristo-acima-da-cultura,
os sintetizadores (assim são chamados seus teóricos) não refazem os produtos
culturais, mas, ao contrário, “adotam
esses produtos e então os suplementam com a fé cristã. Esse modelo busca
‘edificar a partir da cultura para Cristo’.” e tem Santo Tomás de Aquino
como seu principal expoente. O mesmo que foi dito a respeito da MIT em IIa
vale para IIb.
Em resumo,
“A
ideia inspiradora que sustenta essas abordagens [do modelo da relevância de
Keller] é que o Espírito de Deus está
operando na cultura para expandir seu reino; assim, os cristãos devem enxergar
a cultura como aliada e unir-se a Deus na realização do bem. Portanto, a forma
de engajamento cultural é a adaptação da igreja às novas realidades e a conexão
ao que Deus está realizando no mundo.”
Assim, parte das
pessoas que se enquadram – mesmo sem saberem – neste modelo “são otimistas em relação às tendências
culturais e sentem menos necessidade de refletir sobre elas, de discerni-las e
de reagir de maneiras discriminatórias para com elas”. Assim, porém,
afastam-se do modelo da relevância de Keller o fundamentalismo católico (como
no Pe. Paulo Ricardo de Azevedo) e a militância do Pr. Silas Lima Malafaia
(Assembleia de Deus Vitória em Cristo - ADVEC), ambos no Brasil. Elas também “conferem muito destaque ao ‘bem comum’ e ao ‘desenvolvimento humano’”. Muitas
creem na letargia eclesial para falar de Deus à sociedade e na operabilidade
divina extra-eclesial. Disto aproximam-se especialmente o MIT e a TL. Afastam-se
contundentemente Pr. Silas Malafaia e Pe. Paulo Ricardo. Muitas destas pessoas
não “mencionam uma cosmovisão cristã
(...) [evitando] intencionalmente a
retórica negativa de uma cultura ‘moribunda’ ou ‘em declínio’ (...) que
caracteriza a direita religiosa.” Nisto está mergulhada toda a TL e as
igrejas dela adeptas. (Infelizmente!) Uma outra característica dos relevantes[3] - esta é comum a todos os
seus correligionários – é que eles creem que “o problema principal da igreja (...) [é] o fato de ela ser incompreensível às mentes e aos corações das pessoas
não cristãs, além se ser nada pertinente aos problemas da sociedade.” Lamentavelmente,
esta é a dura realidade da maioria das igrejas pentecostais (como a Assembleia
de Deus e a Igreja Congregacional Cristã), neopentecostais (como a Igreja Universal do
Reino de Deus (IURD) e a Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD) e as seguidoras
da Teologia da Prosperidade (TDP)). Apropinquam-se deste ponto a MIT, a TDL e a
TL (em menor escala). Caso específico é o da ICAR que, não obstante seu empenho
observável nos documentos e pronunciamentos oficiais, não tem conseguido um
número compatível de resultados positivos. Os seguidores deste modelo fazem
pouca distinção entre a maneira em que cada cristão deve agir e a maneira que a
Igreja deve agir. Por isso, é difícil definir quais denominações seguem à risca
tal orientação. Trata-se mais de um posicionamento pessoal do que qualquer
outra coisa. A princípio, toda a ICAR participa desta visão. Mas há aqueles que
procuram escapar da regra. No Brasil, a maioria dos protestantes é
individualista, baseando-se no princípio de que “cada um que cuide de sua
salvação”, mas as igrejas históricas (como as presbiterianas, as metodistas, as
luteranas e as batistas tradicionais em geral) agem mais coerentemente com este
princípio. Esta característica induz o crente a se posicionar politicamente.
Assim, no Brasil, vemos certos líderes protestantes iniciarem uma coalizão com
outros líderes protestantes ou católicos para derrotarem certas medidas
governamentais e determinados movimentos que opõe-se à ética cristã. Assim,
temos a “bancada evangélica” brasileira, por exemplo.
Depois, Keller
começa a sua crítica ao modelo da relevância, dizendo: a) “Ao se adaptar tanto e tão prontamente à cultura, essas igrejas são
imediatamente vistas como ultrapassadas sempre que a cultura se transforma.”,
b)
que, nos casos extremados, os relevantes hiperestimam a cultura e subestimam a Bíblia, ou seja, há um problema de
doutrina, c) “Com certa frequência,
a força motriz das igrejas que seguem esse modelo não é dirigida ao ensino do
evangelho e à busca por conversões, mas à produção das artes, aos projetos de
serviço ou à busca da justiça.” e d) “É especialmente nesse modelo que a singularidade da igreja (sic) começa
a ficar desordenada.”.
III – No modelo contracultural, “todos os seus seguidores
[contrastantes] enfatizam a igreja como
uma sociedade contrastante como o
mundo.”. O Reino se manifesta,
antes de tudo, como uma comunidade eclesiástica em oposição ao mundo. Ou seja,
a identidade da Igreja se dá na medida mesma do seu afastamento e da sua
oposição em relação ao reino deste mundo. “Os
seguidores desse modelo não enxergam Deus trabalhando redentivamente por meio
de movimentos culturais fora da igreja [sic].”. Para os contrastantes, não adianta
querer insistir na mudança cultural do meio mundano; é perda de tempo ocupar-se
com atividades políticas, pois isto não mudará o mundo. Como escreveram Stanley
Hauerwas e Willia, Willimon: “O mundo,
apesar de toda a sua beleza, é hostil à verdade.”. O corolário disto é a
inércia nos esforços sociais para a mudança de paradigmas, já que tal modelo
conclama a Igreja a não “se concentrar na
cultura e na busca de formas para lhe ser relevante, para alcança-la ou para
transformá-la”. Os contrastantes tendem a explicar as mazelas eclesiais
alegando que elas existem porque o mundo entrou na Igreja, ou seja, a cultura
pagã entrou perniciosamente na Igreja (isto é verdade em muitos casos). O
cristão não deve se misturar com o mundo, não deve se “assentar na roda dos
escarnecedores” (Salmos 1); ao invés
disto, deve sim ser o “sal da terra” e a “luz do mundo” (Mateus 5:13,14). Os contrastantes dizem que o esforço de tornar o
mundo mais parecido com a Igreja só torna a Igreja mais parecida com o mundo (erro constantiniano) e que é crassamente
errado e nocivo ímpeto das megaigrejas de transformar a igreja em shopping de consumo que reflete o
espírito capitalista e egoísta reinante.
Assim, os
contrastantes ou contraculturais mais famosos são alguns dos professores da
Faculdade Teológica da Universidade de Duke (principalmente, Stanley Hauerwas,
William Willimon e Richard Hays), o anabatista John Howard Yoder, David Fitch e
o neomonástico Shane Claiborne. No Brasil, não há, como nos demais modelos de
engajamento sócio-eclesiais de Keller, igrejas, movimentos ou líderes que se
encaixem perfeitamente nesta filosofia, mas pode-se ver, neste ou naquele
aspecto, a influência contracultural em algumas igrejas pentecostais – como a
Deus e Amor e a Assembleia de Deus -, em algumas batistas tradicionais, em boa
parte das igrejas históricas (de um modo geral), nos anabatistas, nos
adventistas, nas testemunhas de Jeová e no catolicismo.
Depois, Keller
começa a sua crítica ao modelo contracultural, dizendo: a) “Os críticos do modelo contracultural o acusam de ser indevidamente
pessimista quanto à prababilidade de mudança social.”, b) “O modelo contracultural tem a tendência de demonizar os
empreendimentos modernos, os mercados capitalistas e o governo.”, c) “O movimento contracultural não dá valor
suficiente à inevitabilidade da contextualização, de uma comunidade cristã que
necessariamente se relaciona e se adapta à cultura que a cerca.”, d) os contraculturais enfatizam
aquilo que Keller denomina aspectos horizontais do pecado – como a ofensa ao
próximo ou à natureza – e minoram a importância que geralmente se dá aos
aspectos verticais das atitudes pecaminosas – como a ofensa a Deus; “isto tende a minimizar as doutrinas da
justificação e do sacrifício reconciliatório de Cristo.” e e) “talvez sem intenção, esse modelo pode minar
a ênfase e a habilidade da igreja em evangelizar – até mesmo mais do que o
modelo da relevância”.
IV - O próximo modelo
abordado por Keller é o dos dois reinos.
Equivale ao modelo Cristo-e-cultura-em-paradoxo
de Richard Niebuhr e é mais conhecido em sua linhagem luterana europeia. Outros
reformadores endossam ser este o modelo de John Calvin (conhecido popularmente
como João Calvino no Brasil), ao contrário dos neocalvinistas, que seguem
Kuyper.
“O
rótulo ‘dos dois reinos’
(ou da mão esquerda) originou-se do
ensino básico de que Deus governa toda a criação por meio do ‘reino comum’, no
qual as pessoas agem pela revelação natural (Gênesis 9; Romanos
1:18-32; 2:14,15), e do ‘reino redentor’ (ou
da mão direita), no qual os cristãos são
governados por revelação especial. (Gênesis
12)” – p. 249
As características
do modelo dos dois reinos são:
IVa – “Os
proponentes do modelo dos dois reinos, diferentemente dos defensores do modelo
contracultural (ou dos petistas), incentivam muito os cristãos a ter profissões
‘seculares’. Todo
e qualquer trabalho é uma forma de servir ao semelhante.
IVb – Este modelo de
engajamento cultural da igreja diferencia-se do transformacionista quanto à
forma de realizar o trabalho no mundo. “Enquanto
o trabalho do cristão no reino comum tem dignidade e utilidade, os defensores
do modelo dos dois reinos ensinam aos cristãos que eles não devem buscar maneiras ‘caracteristicamente cristãs de realizar tarefas comuns’”. No modelo
dos dois reinos a palavra de ordem não é transformar a cultura mas tão-só frear
o mal no mundo. Tudo é passageiro e não é mister nosso empenho para
modificações. Um ponto de união entre os filósofos dos dois reinos e os
contraculturais contra os transformacionistas é que os primeiros, ao contrário
dos últimos, acreditam que servir a Deus não implica em restaurar a criação ou
levar a cultura a uma direção mais cristã, mas tão somente servir a Deus e ao
próximo. Assim, não pode, necessariamente, haver um anfíbio[4] rebelde ou revolucionário;
todos são conformados.
IVc – “Os
proponentes dos dois reinos diferem não apenas do modelo transformacionista,
mas também do modelo contracultural na questão de governo humano e do mundo
comercial em geral. Enquanto, para os transformacionistas, o estado secular é
um enorme problema e, para os contraculturais, ele é um poço de violência e
império, para os anfíbios ele é um estado neutro”, normal, “exatamente como Deus quer”. Isto
implica numa mudança da abordagem ou da expectação escatológica, inclusive. Os
cristãos não devem se sentir coagidos a interferirem no mercado. O capitalismo,
conforme a visão contracultural, não é
demoníaco, e também não o é para os anfíbios; para estes, o mundo comercial não
precisa ser redimido, como afirmam os transformacionistas.
IVd – O modelo dos dois
reinos é intrinsecamente pessimista quando ao feedback que recebemos, enquanto cristãos, da cultura. Não devemos
esperar muito desta vida (Eclesiastes
1:2)[5]. Como disse, certa vez, o
multipalestrante brasileiro Marcos Sousa: “Se
você age em um ciclo repetitivo, não adianta esperar mudanças”. Ou outro
alguém, que disse: “A vida é curta; então
curta a vida”. Mas William James discorda quando afirma: “A maior descoberta de minha geração é que o
ser humano pode alterar sua vida alterando suas atitudes." E Joseph
Campbell: “Devemos estar dispostos a nos
livrar da vida que planejamos para poder viver a vida que nos espera.”.
Basicamente, é
esta a “cara” do modelo dos dois reinos. Existe uma variegada graduação na qual
luteranos, ultracalvinistas e neocalvinistas divergem ou se afastam um pouco um
do outro. São correntes paralelas ao fluxo principal. São pequenos córregos que
partem de um rio, correm ao seu lado e tornam, ao final, para ele correr.
Depois, Keller
começa a sua crítica ao modelo dos dois reinos, dizendo: a) “O modelo dos dois reinos confere mais peso e crédito à função da graça
comum do que a Bíblia confere.”, b) “Muito
do bem social que os seguidores do modelo dos dois reinos atribuem à revelação
natural é, na verdade, fruto da introdução do ensino cristão (...) nas culturas
mundiais.”, c) “O modelo dos dois reinos
... ensina que é possível o ser humano ser conduzido por bases religiosas
neutras.”, d) “... produz uma forma
de ‘quietismo social’.” e e) “...
contribui para uma hierarquia muito elevada entre clérigos e leigos.".[6]
É difícil
enquadrar quaisquer igrejas pentecostais e neopentecostais no modelo dos dois
reinos, pois, de modo geral, estas igrejas são, mutatis mutandi, engajadas politicamente e/ou socialmente. No
Brasil, p. e., a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), assim como a ADVEC e
outras lançam seus candidatos políticos e seus líderes manifestam-se, de quando
em vez, na TV, contra esta ou aquela decisão governamental – inclusive aquelas
relativas ao plano econômico. É mais fácil, porém, encaixarmos, neste modelo, a
ICAR e as igrejas reformadas ou históricas – principalmente as mais
ultracalvinistas.
Concluindo o
capítulo 16, T. Keller afirma que todos estes modelos não são de modo algum
estanques ou unívocos na prática sócio-eclesial. Toda esquematização possuirá
erros caso a entendamos como sendo predicações limitadoras ou estanques.
Igrejas, como a ICAR e a ADVEC, movimentos teológicos, como a TDL, a TL e a
MIT, e líderes religiosos, como o Pe. Paulo Ricardo e o Pr. Silas Malafaia, não
podem ser encaixados perfeitamente nos modelos sócio-eclesiais de engajamento
pois, ao mesmo tempo que atuam como produtores culturais, são produtos da
cultura em que estão imiscuídos. Destarte, p. e., no Brasil, a ADVEC, bem como
a sua liderança, não é uma igreja puramente transformacionista, nem relevante,
nem qualquer outra coisa. O mesmo vale para a ICAR. O mesmo vale para a Igreja!
Aliás, a Igreja, mesmo na Bíblia, mesmo
na Tradição milenar, sempre foi um caleidoscópio cultural de variações
ideológicas enredadas numa mesma trama doutrinal, como uma colcha de retalhos
que, não deixa de ser uma e somente uma coisa e não perde as sempre mesmas
finalidades. Se, na colcha de retalhos, cada retalho tem seu tamanho, sua cor,
sua textura e sua aparência, na Igreja, cada membro e cada denominação tem sua
matiz, sua maneira de pregar e aplicar o Evangelho etc, mas sempre não deixando
de ser a mesma Igreja, com as mesmas finalidades e, ao modo de um rio, correndo
sempre para um mesmo grande fim: Deus!
BIBLIOGRAFIA
KELLER, Timothy. As respostas culturais da igreja. In: Igreja
centrada. Vida Nova. São Paulo, Brasil,
2014. [Título original: Center Church:
Doing Balanced and Gospel-Centered Ministry in Your City. Grand Rapids.
Michigan, EUA.]
[1]
Doravante, para
não haver conflitos semânticos e para que possamos chegar mais perto do que
queremos explicar, adotaremos a seguinte correspondência sinonímica: a)
o termo Igreja designa a comunhão (no
que possível) material e espiritual das igrejas protestante, católica romana e
ortodoxa; b) o termo igreja
designa a(s) comunidade(s) eclesial(is) protestante(s) espalhada(s) no mundo,
podendo ser entendido aqui b¹) como a atuação geral e uniforme
de todas as comunidades eclesiais protestantes (como se fossem uma só coisa,
igual e sem mesclas) ou b²) como a atuação de parte ou da
maior parte das comunidades eclesiais protestantes do mundo (não representando,
portanto, a totalidade); c) a sigla ICAR será usada para
representar a atuação da Igreja Católica Apostólica Romana. Ainda se usará a
sigla IP para expressar o mesmo que em b¹).
[2] Doravante, para melhor
explicitação, entendo que os modelos de engajamento cultural de H. Richard
Niebuhr devem ser grafados com hífen.
[3] Assim chamo os
seguidores, conscientes ou inconscientes, do modelo da relevância.
[4] Assim eu chamo os
filósofos ou teólogos do modelo cultural de engajamento eclesial dos dois
reinos de T. Keller. O apodo é devido aos dois modi agendi, operandi, vivendi e cognoscendi de tais cristãos, o que lembra os dois habitat dos animais
de sangue frio.
[5] “’Vaidade de vaidades’, diz o pregador, ‘vaidade de vaidades! Tudo é
vaidade’.” (ACF).
[6] Há uma diferença
qualitativa significativa entre os trabalhos leigo e sacerdotal. Aqui,
sobressai o modus operandi católico,
romano ou ortodoxo.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
A Pneumatologia de J. I. Packer: resenha do capítulo 5 de "Na dinâmica do Espírito"
Mapeando
a Rota do Espírito: A Vida Carismática
In:
Na dinâmica do Espírito
RELATÓRIO
DE LEITURA
O autor afirma (p. 165) ser necessário estudar o
movimento carismático porque ele tem sido o principal canal de atuação do
Espírito Santo na Igreja, sendo, por isso, uma “nova força espiritual”. À p.
166, Packer afirma que os carismáticos são aqueles que mais avidamente anseiam
e esperam que alguma manifestação avivalista ocorra no seio da Igreja. Isto por
si só já basta para acreditarmos ser de grande valia o movimento em estudo. Ademais,
é dito, logo depois, que muitos líderes do movimento (se é que ele os possui,
nestes termos) pleiteiam, para o mesmo, o mérito de reunir crentes de várias
denominações dessemelhantes, despontando como o escol do ecumenismo
internacional e transdenominacional. Isto, porém, desperta-me controvérsias, já
que, no Brasil, ocorre justamente o contrário: as igrejas não-carismáticas são
as que mais se apropinquam das demais, inclusive a católica.[1]
Na mesma página, citando Lesslie Newbigin, J. I. Packer
explicita a visão deste teólogo de que o movimento carismático veio, até mesmo,
renovar o conceito de Igreja. Afirma Newbigin que o conceito protestante reformado
de Igreja como “congregação dos fiéis” e o católico de Igreja como “o corpo de
Cristo” precisam ser ressignificados à luz do movimento pentecostal dos últimos
tempos, que concebe, diz ele, a Igreja como “a comunidade do Espírito Santo”.
“Isto”, ele diz, “é, agora, necessário para fertilizar e irrigar as outras duas
opiniões”, completa Packer na l. 34. Na minha opinião, realmente, a Igreja não
é apenas a congregação dos fiéis ou o
corpo de Cristo. Pelo menos, eu creio, estes não são os melhores termos para
designá-la de maneira rápida, porém completa. A expressão “corpo místico de
Cristo”, derivada da expressão latina Corpus
Mysticum, parece-me mais adequada por enfatizar esta nuance espiritual. Mas
é uma questão mais estilística do que teológica... Tal expressão pode-se notar
em escritos paulinos, como 1 Coríntios 12:12-14,
principalmente, e também em Romanos 12:5,
Efésios 3:6; 5:23 e Colossenses 1:18; 1:24. Esta concepção
de Igreja foi retrabalhada, posteriormente, na encíclica Mystici Corporis Christi (1943), de Pio XII, porém com a afirmação
papal de que a Igreja de Cristo está ou subsiste única e exclusivamente na
Igreja Católica Apóstólica Romana, o que, obviamente, não é aceito pelos
protestantes. Eu, particular e honestissimamente, vejo que a Igreja de Cristo
não é a ICAR necessária e exclusivamente, mas confesso, como estudioso da
teologia – inclusive a católica -, ter dificuldades de rebater todas as
formulações elaboradas para defender tal posição.
Depois, Packer apresenta as diferenças e semelhanças
presentes nos dois principais grupos de renovação carismática e que desenlaçam
alguns pontos de tensão internos ao movimento em geral. A princípio, o
catolicismo romano, por ser mais homogêneo e melhor estruturado, soube receber
o movimento e conformá-lo em moldes mais ou menos pré-estabelecidos, sem
grandes descalabros. O protestantismo, porém, essencialmente polissêmico e
descentralizador, até hoje, tropeça em questões atinentes, como se uma pessoa
deve ser contra ou a favor dos carismáticos. Enfim, a igreja protestante não
costuma resolver os problemas eclesiológicos que possui, apenas joga-se a “poeira
para baixo do tapete”. Se há um problema, quer generalizado, quer localizado,
dá-se sempre um jeito de se escamotear o mal, seja mudando-se de igreja, seja
mudando-se radicalmente a igreja, seja criando-se uma nova igreja, seja
manipulando-se o fiel etc. Enquanto, na Igreja Católica, necessariamente, sob
pena de ruir, os bispos “estapeiam-se” para encontrar uma solução para tais
problemas; assim, na ICAR, ou se resolve, ou se resolve! Na IP, porém, se não
se resolve, escamoteia-se... e pronto!
O movimento carismático enfatiza a experiência
sobrenatural; o movimento evangélico, isto é, aquele que é bíblico, enfatiza,
porém, a metanóia (gr. metάnoia). O movimento carismático rarefaz a verdade inconcussa
evangélica quando tolera as variegadas manifestações espirituais – muitas vezes
contraditórias e excludentes. Estas são algumas dessemelhanças existentes entre
os movimentos evangélico e carismático.
Contudo, ambos os movimentos guardam algumas semelhanças.
A fé, o arrependimento, o amor a Jesus, a prática de transformação de vidas
pelo poder do Espírito Santo, o aprendizado acerca de Deus e através da Bíblia,
uma oração eficaz, livre e fervorosa, o ministério de leigos em pequenos grupos
e o apetite por músicas, cantos e louvores ritmados e excêntricos são as
principais características que os movimentos conservam comumente. (Ver p. 168.)
Percebeu-se que o movimento carismático, em comparação
com o movimento original evangélico, é menos racional e mais espiritual;
teologicamente menos sólido; sociologicamente mais inclusivo. É teologicamente
menos sólido, pois nada põe de novo quanto à dogmática: “Eles sabem que não é
este”, a reflexão teológica, “o objetivo do seu movimento”, afirma J. I.
Packer, na p. 170.
Mas, como identificar um movimento carismático? Como
saber se tal fenômeno ocorre em determinada comunidade eclesial? Como
quantificar isto? É preciso um cânon, isto é, um padrão, algo que sirva de
gabarito para mensurar o quão se aproxima um igreja do fenômeno carismático
pentecostal. Packer, assim, oferece-nos 5 principais características, resolutamente
inerentes a todo e qualquer movimento carismático:
a)
um importante enriquecimento da experiência
cristã pessoal, posterior à conversão;
b)
“falar em línguas”;
c)
dons carismáticos;
d)
adoração “no espírito” e
e)
estratégia de renovação usada por Deus
(presente especialmente no Movimento G-12).
Salta-se
à leitura, na p. 174, §2º, o que Packer fala sobre a hinologia carismática:
“(...)
o estilo repetitivo, de progresso lento,
algumas vezes incoerente, dos hinos e corinhos carismáticos contrasta
marcantemente com as palavras mais
teológica e poeticamente escolhidas, e com as músicas mais animadas de décadas
passadas.” – grifo meu.
Perceba como o movimento carismático é de difícil
contenção e mensuração. O que o autor disse é universal? Não. Ao menos, não se aplica
universalmente à igreja brasileira; mais especificamente a carioca, na qual
estou imiscuído. São opostos dois tipos de hinos – ou louvores, ou músicas
gospel -: o antigo (de décadas passadas)
e o hodierno (carismático). Sobre o
antigo, o autor diz que possuem palavras
mais teológica e poeticamente escolhidas – o que é verdade na hinologia
protestante brasileira – e é mais “animado”. Opa! Aqui, não! No Brasil,
evidentemente, os louvores antigos não são mais “animados” que os atuais. E
sobre o louvor carismático atual, Packer diz que são repetitivos – é verdade,
no Brasil! -, de progresso lento – é mentira, no Brasil! – e, algumas vezes,
incoerente – quase sempre, no Brasil, neste ou naquele ponto teológico. Assim,
inversamente ao que o autor afirma, vemos que, no Brasil, o hino carismático é
mais “animado” que o hino antigo. Talvez, seja exceção, o hinário das igrejas
que cultivam a chamada “adoração espontânea”, aquela que se caracteriza pela
presença da “ministração” e da “adoração espontânea”. Ademais, na p. 182, uma
semelhante discrepância ressoa quando o autor afirma que “Sociologicamente, o movimento carismático é, em sua maior parte,
formado de pessoas da classe média.”. Este é mais um ponto de divergência
entre as realidades dos movimentos pentecostais do Brasil e dos Estados Unidos.
No Brasil, patentemente, o movimento carismático não é composto
majoritariamente por pessoas da classe média econômica e isto se deve,
principalmente, às diferentes particularidades que as diferentes realidades
conservam.
A partir da p. 180, após expor as principais características
da vida carismática, J. I. Packer traz os aspectos positivos do movimento:
a)
centralização de Cristo,
b)
a vida no poder do Espírito,
c)
emoção que encontra expressão,
d)
oração,
e)
alegria,
f)
envolvimento de todos os corações na adoração
a Deus,
g)
o ministério de todos os membros no corpo de
Cristo,
h)
o zelo missionário,
i)
o ministério de pequenos grupos.
E,
na p. 186, ele se põe a mostrar os aspectos negativos do movimento:
a)
elitismo,
b)
sectarismo,
c)
emocionalismo,
d)
anti-intelectualismo,
e)
iluminismo,
f)
“carismania”,
g)
“super-sobrenaturalismo”
h)
eudemonismo,
i)
obsessão por demônios e
j)
conformismo.
Assim
termino meu relatório de leitura do capítulo 5 de Na dinâmica do Espírito. Em suma, o autor encerra o texto apontando
que não são tão grandes as diferenças entre carismáticos e não-carismáticos e
que quase tudo o que os carismáticos fazem em congregação os não-carismáticos
também o fazem ao seu modo e numa intensidade diferente.
Despeço-me,
porém, com um pedido de cautela expresso num comunicado do Bem-Aventurado João
Paulo II:
“A
Renovação Carismática Católica ajudou muitos cristãos a redescobrir a presença
e a força do Espírito Santo na sua vida, na vida da Igreja e no mundo. Esta
redescoberta despertou neles uma fé em Cristo repleta de alegria, um grande
amor pela Igreja e uma generosa dedicação à sua missão evangelizadora. (...)
(...)
Pertenceis a um movimento eclesial e a palavra «eclesial» obriga a uma preciosa
tarefa de formação cristã, que requer uma profunda convergência entre fé e vida.
A fé entusiasta que reaviva as vossas comunidades deve ser acompanhada por uma
formação cristã adequada e fiel ao ensinamento eclesial. Com efeito, de uma
sólida formação derivar à uma espiritualidade profundamente radicada nas fontes
da vida cristã e capaz de responder aos interrogativos cruciais apresentados
pela cultura de hoje.
Na
minha recente Carta Encíclica Fides
et ratio, adverti contra um fideísmo que
não reconhece a importância da obra da razão, não só para uma compreensão da
fé, mas também para o próprio acto de fé.” [2]
Que
Deus abençoe a todos nós!
FONTES
BIBLIOGRÁFICAS E VIRTUAIS[3]
1. PACKER, J. I. Mapeando a rota do Espírito: a vida carismática. In: Na
dinâmica do Espírito. 1ª edição, Vida Nova. São Paulo, 1991. Título
original em inglês: Keep in Step with the
Spirit. 1ª edição, Fleming H. Revell Company. Tarrytown, New
York, 1984.
2.
Carta encíclica Mystici Corporis do sumo pontífice Papa Pio XII. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_29061943_mystici-corporis-christi.html
3. Discurso
do Papa João Paulo II aos responsáveis do movimento carismático católico - 30 de outubro de 1998. Disponível
em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/1998/october/documents/hf_jp-ii_spe_19981030_carismatici.html.
Consultado em 15/05/2015.
[1] Vide,
p. e., a relação que a Assembleia de Deus tem com a ICAR e a que a Igreja
Luterana tem com a mesma ICAR. Ou melhor, enquanto há uma pequena, mas
crescente, harmonia entre a comunidade luterana mundial e os católicos,
simplesmente não há rigorosamente nenhuma relação entre os assembleianos e os
católicos; mesmo entre os carismáticos de ambas as comunidades! Isto posto,
contrariando J. I. Packer, concluo que o movimento carismático acentua o
separativismo religioso. Só há um caminho para o ecumenismo, que é as igrejas
encontrarem um ponto comum. Este ponto é cada vez mais comum quanto mais
regressarmos no tempo, o que nos fará ver que é nos primeiros séculos de
teologia e história cristãs que repousa a base comum a todas as comunidades ou
denominações eclesiais. Isto aponta para a urgente necessidade – caso queiramos
o ecumenismo – de nós cristãos estudarmos a teologia e a Tradição da Igreja,
mormente nos primeiros séculos, até a principal separação ocorrida na revolução
protestante.
[2] Discurso
do Papa João Paulo II aos responsáveis do movimento carismático católico - 30
de outubro de 1998.
[3] NOTA: repare esta bibliografia: isto é
ecumenismo! Uma obra de autor protestante e dois documentos do Vaticano. Assim,
abertos ao outro, estamos mais perto da verdade. Parafraseando Aristóteles, na
contradição está parte da sabedoria!
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